O ocaso do Igapó
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de novembro de 2001
Humberto Yamaki 
Uma boa cidade é aquela que procura conciliar a vitalidade da iniciativa privada, a correta administração pública e a energia da comunidade. No momento em que a visão legalista e imediatista tem tornado as nossas cidades incrivelmente parecidas umas com as outras, o Lago Igapó deveria ser considerado como laboratório para a construção de uma Londrina sustentável, durável e competitiva.
Apesar da maneira conturbada com que tem sido conduzido o processo chamado de revitalização do Igapó, sua imagem continua forte no código interno dos moradores. Atesta a Maratona Fotográfica de Londrina, onde a maioria dos 195 inscritos focalizou o Lago como tema. O segundo colocado registrou o crepúsculo com silhuetas de pescadores, ciclistas e edifícios.
O recente impasse sobre valores, prazos e detalhamento na licitação do Projeto de Revitalização do Igapó evidencia contra-senso e incongruência. Instantes e intervalos, colagem de fragmentos, o momento é de reflexão e discussão dos princípios fundamentais a Londrina que desejamos.
Paisagem das águas ou waterfront Igapó. Projeto visionário dos anos 50, o Igapó deve ser analisado de forma integral, holística. Cuidado especial deve ser tomado em relação à paisagem. Cuidar não só das margens, mas do que se vê além, do que reflete. Construir a paisagem das águas, intensificar seu uso, suas filigranas. Afinal, a Londrina em que ir a supermercado continua forte opção de lazer, não tem praia.
Tempo. O planejamento de uma paisagem deve considerar um prazo relativamente longo, dez anos ou 20 anos talvez. O resultado imediatista tendo como horizonte o próximo 10 de dezembro não será um presente de aniversário à cidade. É preciso pensar numa cidade duradoura, e que o tempo reforce o seu caráter.
Diversidade. O entorno do lago deve ser um espaço de toda a comunidade, onde pessoas de todas as classes e idades, possam usufruir momentos de lazer e descanso. Não só locais para esportes, mas também recantos de nada fazer deveriam constituir programa básico. Resolvida a questão da segurança, usos noturnos poderiam ser incentivados, oásis no verão agressivo.
Tolerância zero a aterros. Ao longo de sua história, o Igapó veio sendo aterrado continuamente e deliberadamente. Em qualquer cidade sensata no mundo, um lago na área central mereceria cuidados redobrados à sua manutenção, sendo inimaginável sua diminuição. A recente proposição no Igapó 2 apresenta no aterro a solução ao conserto da barragem e construção de caminhos. Deve-se sim, implementar imediatamente um processo de aumentar a lamina d'água através de desaterros e se ampliar as áreas livres do entorno, incorporando gradualmente os novos vazios e sobras de terrenos. Tolerância zero a aterros, por mínimo que seja, justificado ou não.
Vitalidade. A rapidez com que se construiu edifícios de alto padrão nas margens do Lago é sinônimo visível de vitalidade da iniciativa privada. O panorama do lago vendido pelas incorporadoras é, de certa maneira, uma garantia à sua conservação. No entanto, temos de admitir que a atual legislação urbanística é ineficaz à construção de paisagens. Edifícios com exíguos recuos laterais e de grande número de pavimentos resultaram na Copacabana Londrinense. Constituem paredões que privatizam a vista e de certa maneira influenciam na ventilação, no microclima.
O ideal seria ainda que todas as edificações tivessem seu acesso principal e não a garagem e serviços voltados à direção do lago. Poderia aumentar-se assim potencialmente a segurança da região.
Acessibilidade. Uma das qualidades a ser reforçada é a acessibilidade à água. A água não só para ser vista, mas para ser tocada, para brincar com segurança. A piscina que existia nas margens do Lago 1 foi aterrada por algum motivo, para dar lugar a um palco subutilizado. Teria sido uma solução sensata?
O controle e manutenção da qualidade da água é essencial quando se pretende dar acessibilidade efetiva. Pensar ainda, numa integração dos Lagos, ao menos ao pedestre, é solução viável e que deve ser considerada.
Controle de qualidade do design. A cidade pioneira talhada no machado, terra de ''jacus e picaretas''(Vieira, 1999), deve ser guardada na lembrança. Queremos uma Londrina excelência em design, de projetos duradouros e exemplares, que sejam continuamente aprimorados. Que a escassez de recursos não seja desculpa constante à qualidade, precariedade e improviso nas intervenções urbanísticas. Fazer um parque urbano é fazer Arte, dizia o paisagista Burle Marx, autor do projeto Parque da Cidade de Londrina (1970).
Genius Loci ou espírito guardião. Os romanos falavam na existência do Genius Loci (Schulz,1980), espírito guardião que dava vida aos lugares e determinava seu caráter. O espírito que falamos aqui não é aquele que dizem dever ser desarmado para discussão. Como será o espírito guardião do Igapó?
Finalizando, vale lembrar Calvino em Cidades Invisíveis (1972): ''O inferno dos vivos não é algo que será, se existe é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas, aceitar o inferno e tornar-se parte dele até o momento de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige aprendizagem contínua: tentar saber quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo e abrir espaço.''
- HUMBERTO YAMAKI é arquiteto e presidente Instituto de Arquitetos do Brasil (Iab) em Londrina


