Para a alegria de felizmente poucos inimigos que angariei ao longo de minha existência e tristeza da esmagadora maioria composta por leais amigos, o Rei Momo de Londrina, após lamentável e carnavalesco acidente automobilístico está temporariamente tendo como única alternativa a locomoção por meio de uma cadeira de rodas, que sem perder o humor apelidei de ‘‘novo trono’’.
Tenho uma aluna com deficiência física, a Silvinha, pessoa da qual me orgulho pelo caráter e admiro pela capacidade de viver intensamente ainda que presa a uma cadeira de rodas. Sempre que pude, estive por perto para ajudá-la a transpor os inúmeros obstáculos que aparecem pelo percurso de quem está incapacitado de andar com as próprias pernas. Se no campo material a Silvinha sofre com escadas, buracos, passagens estreitas e erros de projetos, no campo profissional ela trabalha em uma das empresas da minha família, onde todos aprenderam a tratá-la com a eficiente física, tamanha sua dedicação e empenho. Observe-se aqui que as adaptações necessárias na empresa não foram muitas e com um pouco de boa vontade teve-se a sorte de tê-la como colaboradora.
É preciso que mais empresários, tal como o Fernando Prochet, conscientizem-se de que as deficiências dessas pessoas são meramente físicas, não abrangendo o intelecto ou a garra de construir algo de bom para os empreendimentos, oferecendo cada vez mais oportunidades de trabalho aos eficientes físicos em suas organizações como, aliás, já prevê uma lei em vigor.
Os que me viram reinando no Carnaval londrinense, fosse na rua, nos desfiles ou clubes, já conhecem minha total incapacidade de ficar parado ao sabor dos acontecimentos, e tanto isso é verdade que tratei de alugar uma cadeira de rodas que permitisse seguir o curso da vida, participando mais intensamente da vida política e social da cidade. Só quem está nessa situação consegue aperceber-se do quão impotentes estão os portadores de deficiência física em nosso País. Nunca o ditado ‘‘querer é poder’’ torna-se tão ineficaz quanto nesse momento. Queremos rodar pelas calçadas e não podemos, tamanha a quantidade de buracos que nos jogam para fora de nossas cadeiras, representando constante perigo de adicionar mais problemas aos já existentes. Queremos ir ao teatro e não podemos, pois não tem rampas no lugar das escadas e as passagens são estreitas para permitir maior número de lugares para os que podem se locomover livremente. Se o automóvel não for dos grandes, com um bom porta-malas, esqueça, pois não haverá espaço para acomodar a cadeira.
Semana passada fui ao auditório do Sinduscon, participar de um encontro do PPS. Saí de casa feliz, de banho tomado e cabelos penteados, crente de que no Sindicato da Construção Civil os nossos engenheiros não haveriam de ter esquecido das elementares e primárias condições mínimas aos deficientes físicos. Lá tem escadas até para se ir ao banheiro e aquele que conseguir transpô-las, com eu que me arrastei feito cobra pelo chão, ao chegar ao objetivo se defrontará com uma estreita porta que impossibilita o acesso das cadeiras ao sanitário. Saí de lá triste, mas com a promessa de que brevemente algo será feito. E eu vou cobrar assim que ficar restabelecido!
Os comerciantes que espumam de raiva ao conversar sobre os horários de trabalho em Londrina brevemente me terão às suas portas, munido de cadeira de rodas a testar se algo já foi feito em prol dos deficientes, seja no campo profissional oferecendo oportunidades ou no campo físico checando se sua arrumação permite a minha locomoção. Desde já convido a imprensa a me acompanhar nessa jornada. Nesse particular, justiça seja feita ao Shopping Catuaí, que por iniciativa da sua Associação de Lojistas, presidida pelo empresário Eduardo Caram, disponibilizou não só cadeiras motorizadas aos deficientes que por lá aparecem, como também rampas de acesso aos restaurantes que ficam num nível superior ao solo.
Finalmente, comunico a todos, deficientes ou não, que Londrina ganhou um lutador ‘‘de peso’’ e ‘‘sangue azul’’ pelos direitos dos deficientes físicos e que meu novo trono, temporariamente alugado, será incorporado ao meu patrimônio real e se fará presente comigo em visitas a lojas, ruas, restaurantes numa campanha em prol das condições mínimas aos impossibilitados de locomoção.
- RICARDO PROCHET é o Rei Momo de Londrina
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