O novo que inquieta e perturba - Walmor Macarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de abril de 1999
Walmor Macarini 
Há a fábula do homem que só olhava para baixo, e postava-se debruçado sobre o poço para ver a lua refletida na água, e então o sapo que habitava no fundo perguntou-lhe: O que vens ver? - A lua - foi a resposta. - Mas aqui embaixo não há lua nenhuma! Não será aquela que vejo lá no alto? A visão que tenho dela é maravilhosa! - retrucou-lhe o sapo. Então o homem ergueu a cabeça, olhou para o alto e enxergou a lua em sua plenitude e viu a realidade daquilo que imaginava limitado ao reflexo da água do poço.
Ao compreender-se apenas em sua dimensão carnal o homem apequena-se, limita-se ao poder de seus cinco sentidos e imagina que esta é a sua plenitude. Ignora sua essência divina, sua vigorosa força crística, que lhe é inerente e imanente desde os tempos eternos e é a argamassa de que se compõe, porque feito por Deus à sua imagem e semelhança. Assim, tudo pode, porque revestido da mesma substância e da autoridade dAquele que o criou e o fortalece.
Proclamando-se pequeno diante de Deus, o homem nega Deus. Um filho não perde sua grandeza diante do pai, porém mais que isto dá qualidade ao pai. Assim como a bica dágua confirma a existência da fonte e confere-lhe qualidade. A fonte é a bica, a bica é a fonte, e o canal condutor da fonte à bica é a um só tempo a fonte e a bica, os três uma só coisa. Deus é o homem e o homem é Deus, e o fio condutor que os une é o canal crístico, aquele a que se referia Jesus ao emergir nele (ou ser envolvido por ele), porque só através desse canal chegaria ao Pai. E nos ensinou que só através deste mesmo canal, também nós lá chegaríamos. Em outras palavras, não chegaremos à plenitude da Luz, à Fonte, senão através deste canal de Luz semelhante. Cristo não é um nome, é uma condição, e essa condição crística era inerente ao espírito que encarnou em Jesus, e poderosíssima nele.
Jesus era o homem, sujeito ao frio e à fome, ao temor do abandono, a tentações terrenas, à morte; o espírito de Jesus era a sua essência, hoje habitando as elevadas regiões celestiais e ainda exercendo seu voluntário ministério pela causa dos seres da Terra, porque sua missão ainda não se completou; o Cristo era o poder imanente de Deus presente nele, o mesmo presente em nós. O Cristo (ou o poder crístico) preexistia a Jesus, está na origem dos tempos infinitos.
Não é nosso corpo físico que encerra poder, porque é apenas invólucro de nossa substância divina - e como tal temos a responsabilidade de preservá-lo, de não submetê-lo ao perigo desnecessário e à degradação - mas o que tem poder é justamente esta nossa essência, que é ausente de imperfeições. Ela se compõe do éter universal, que se estende da Terra ao Céu, que existe e preexiste e está em toda parte. É o Deus-Pai Deus-Mãe que habita nosso santuário interior e onde O encontramos e podemos nos sintonizar com Ele.
A qualidade de nossa visão espiritual nos eleva ou nos subtrai, nos conecta ou nos distancia, nos coloca em sintonia com as legiões de luz ou nos projeta nas sombras. Tudo obedece a um princípio inteligente de causa e efeito. Somos os agentes de nossa própria salvação, porque carregamos em nós a qualificação divina.
Apóiam-se demais no comodismo aqueles que, simplesmente, entregam tudo na mão de Jesus, apegam-se a ele para que os salve. Jesus veio para nos ensinar os caminhos da salvação, não para nos salvar. Mas se queremos entender esse ensinamento como salvação, então que o denominemos salvador. Ele não se importa com rótulos ou louvações. Ele se sintoniza, sim, e imediatamente, com nossas vibrações carregadas com a intensidade da fé. E fé não é aquilo que depositamos num protetor do plano divino, Jesus incluído, mas é a consciência de que o que desejamos é possível, porque o poder de Deus - que foi Sua dádiva - está em nós, e só nós acionamos esse poder. A fé é, portanto, um estado de poder. Jesus e muitos hierarcas das esferas superiores, os santos, os arcanjos, os anjos, os devas, os elementais, estão prontos a nos servir, atentos aos nossos clamores, porque ao conclamá-los e nos valermos deles, também os auxiliamos a que realizem sua obra e a sua permanente ascensão, eis que tudo no universo avança e evolui. Mas para que nos auxiliem temos que permitir, porque eles não interferirão em nosso livre arbítrio, pois isto significaria uma infringência à lei. Assim não fosse, e eles impediriam as guerras dos homens e seus desmandos, e já teriam implantado aqui um paraíso terrestre...
Ler, reler e decorar o texto bíblico por si só não basta. É preciso entendê-lo, compreender o sentido no mais das vezes figurado de suas palavras. Fosse interpretado ao pé da letra o escrito de que só se chegará ao Pai através de Jesus, então como chegaram a Deus aqueles que viveram na Terra nos cinquenta milhões de anos que antecederam o mestre da Galiléia?!...
O texto bíblico é hermético, simbólico em muitas partes. Por isso de mil formas interpretado, não obstante uma só verdade exista. Pelo que encerra, só deveria ser lido pelos iluminados, para que estes o repassassem à gente do povo. Imaginemos um tratado de física nuclear em mãos de leigos. Eles poderiam decorar todas as fórmulas, citá-las em trechos numerados, mas não seriam capazes de fazer uma equação ou de explicar a composição do átomo.
Para se entender um livro como o da condensação bíblica, de densos ensinamentos, revelações, mistérios, sabedoria, história, moral, ética, e também de muito simbolismo e fantasia, de verdades distorcidas e de verdades não contadas mas percebendo-se que faltam, necessário seria que alguém o explicasse, porém que não fossem cegos a guiar cegos. Mas se os homens só enxergam a lua refletida na água do poço e recusam-se a voltar a cabeça para o alto, não a verão na realidade.
O novo, ou o velho revelado de forma nova, realmente perturba. Inquieta. Porque mexe com velhas estruturas. Faz pensar. O que está nos Testamentos nós sabemos. O que muitos não sabem é o que não está neles. O Novo, só para citar o que trata de Jesus, não é uma obra completa, porque não fala uma linha sequer da vida do Mestre dos 13 aos 30 anos, portanto mais de metade de sua jornada terrena e quase a totalidade de sua vida adulta. Essa história ocultada, embora não obscureça o essencial dos seus ensinamentos, não convinha à Igreja advinda do pós-Jesus, como ainda não convém hoje, porque incursiona pelo aprendizado de Jesus com os essênios, com os budistas, com os monges do Tibete, com os magos da Pérsia, com os pensadores do Egito, com os filósofos de Atenas. A nova Igreja, mais apegada à terrenidade, como ainda em nossos dias, não iria aceitar a origem iniciática e o esoterismo, nem a teoria reencarnacionista dos essênios, portanto também de Jesus, que nunca citou os essênios mas não ocultou sua própria condição essênica, eis que sempre vestiu a túnica branca e sem costura dos essênios, repartia o cabelo ao meio como os essênios e praticou curas como lhe ensinaram os terapeutas essênios, foi, quando morto, colocado numa sepultura de essênios, os mesmos essênios que - acredita-se - retiraram dali seu corpo, quando, triunfal, o espírito já ressurgia, liberto. Maria, mãe de Jesus, era uma vestal egressa da comunidade essênica. Os essênios, uma confraria que habitava as margens do Mar Morto, eram puros e dominavam as doutrinas secretas.
Conhecer a história não contada de Jesus mudaria certos conceitos arraigados nas mentes dos biblióides obscuros e fanatizados. E não só, mas que eles se inteirassem também das coisas novas que nunca cessaram de chegar, e ainda chegam nos nossos dias, oriundas de Jesus e outros iluminados mestres dos planos espirituais, assim como aconteceu no passado e cujos canais foram os evangelistas e aqueles que escreveram os livros do Velho Testamento, afora tantos outros escritos da sabedoria milenar que foram destruídos pelas Igrejas. Mas não querem admitir coisas novas aqueles que ficaram apegados às velhas. Perdem a oportunidade de, pelas palavras novas, entenderem também as velhas. Utilizam e bradam o nome de Jesus com alarde, em sutil mas persistente disputa entre organizações religiosas, mais visando a arregimentação de novos fiéis e pagadores de dízimos do que a pregação dos ensinamentos do Mestre, e dessa forma o estão crucificando de novo.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


