O novo perfil do populismo
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de dezembro de 1996
Fernando José Dias da Silva 
E o populismo está de volta. Populismo é mais ou menos o seguinte: o pessoal do andar de cima faz algumas concessões para a turma do andar de baixo para, justamente, continuar frequentando o andar de cima. Só que hoje em dia Getúlio Vargas, João Goulart, Adhemar de Barros devem estar morrendo de inveja porque o neo-populismo não concede nada. Está baseado no discurso vazio e no marketing político que preenchem de forma virtual aqueles acenos que a turma que está na cobertura fazia para a patuléia da fila do gargarejo.
Agora o novo populista não precisa adular o sindicalista pelego. Os meios de comunicação se encarregam de fazer o serviço. Publicam e transmitem tudo os que os políticos e os apaniguados fazem e dizem. Se deixam manipular gostosamente pela turma do andar de cima.
Para identificar essa turma não é preciso muita pesquisa. Uma folheada rápida no jornal basta. As atitudes são inacreditáveis. Os atores choram em público, fazem as maiores micagens. As frases, então, são retumbantes. Um diz que quebrou bancos para salvar o Plano Real e defender a população. Outro afirma que não é ética a tese da reeleição já, quando sua vida política nunca foi pautada por esse tipo de critérios. E mais ainda, chegam a cercar favelas com casinhas de brinquedo para esconder os barracos e dizer que em breve todos esses problemas serão resolvidos.
É o populismo aliado à demagogia. Depois dizem que o eleitor não saber votar. Mas é claro. Ele não foi educado para perceber essas malandragens, para perceber o que está por trás de todo o aparato de mídia que é posto na frente para dissimular as verdadeiras intenções de determinados grupos que querem tomar de assalto os principais postos de comando de toda essa bagunça. O eleitor e a população são intrinsicamente puros para acrediar que vão exercer suas cidadanias sendo inadimplentes no crediário da esquina, ou, para os mais abonados, na realidade de plástico da Disneylândia.
Populismo de esquerda e de direita, demagogia, tudo isso e muito mais, porque acabou a sutileza na política. Agora as coisas são explícitas e não existe mais recato na política. Os meneios, o jogo de cintura, a arte de ficar calado, de fingir que vai mas não vai, não existe mais. Na verdade, a vergonha acabou. Tudo pode ser feito na frente de todo mundo. E, de preferência, com a presença da televisão.
Um dos adeptos dessa nova ordem é o prefeito de São Paulo, Paulo Maluf. Ele não quer saber de firulas. Conquista um porto e manda queimar as caravelas para que não haja retorno. Só que essa maneira de agir pode provocar grandes vitórias, mas também grandes derrotas, porque não existe o meio termo.
Na discussão sobre a reeleição a sabedoria mineira na política foi por água abaixo. Obra de Paulo Maluf. E obra, também, do ministro Sérgio Motta. Mas o exemplo mais recente foi de Paulo Maluf que fez um escarcéu contra o projeto que permite ao presidente Fernando Henrique disputar mais uma eleição para o cargo. Foi à Comissão Especial que discute o assunto na Câmara Federal, deu festas, fez declarações voluntaristas. Mas quando a direção de seu partido se reuniu, as coisas não sairam como ele queria. O PPB não fechou questão contra a reeleição. Maluf perdeu. Perdeu porque não admitia alternativa. Às vezes a impetuosidade malufista dá nisso.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo


