Wright Mills, que disse que ‘‘dominar a teoria e o método equivale a tornar-se um pensador consciente (...) Ser dominado pela teoria e pelo método equivale a nunca poder começar o trabalho’’, não teve a honra de conquistar, entre os expoentes da ciência política, a mesma popularidade que Karl Marx, Nicolau Maquiavel ou o contemporâneo Norberto Bobbio. Nem por isto, porém, suas teorias deixam de ocupar lugar de destaque na história do pensamento universal. A exemplo de Antônio Gramsci, o obra de Mills é importante porque nos instiga, convidando-nos a uma profunda reflexão sobre a nossa forma de entender a engrenagem política, feito professor impertinente que não se cansa de cobrar mais atenção e empenho dos alunos.
A frase que reproduzimos acima é um belo exemplo disto. Recomenda à inteligentsia que, nas suas incursões pelo pensamento, não perca de vista a perspectiva histórica e humana do ofício de refletir. Ou seja: que não se torne refém das suas próprias idéias, deixando de considerar as contigências da realidade, que lhe salta aos olhos. Que o pensador aja, enfim, como ‘‘intelectual orgânico’’ ao qual se referiu Gramsci durante os seus longos anos na cela a qual foi confinado na Itália.
Nada mais oportuno do que lembrar os preciosos ensinamentos de Mills neste momento tão crítico da vida nacional. Não há dúvidas de que sua recomendação interessa a todos nós, mas vale, especialmente, para o presidente da República e os doutos comandantes da economia brasileira. Alunos disciplinados das melhores escolas de políticia e economia do País, FHC, Malan e os demais integrantes do primeiro escalão do governo passaram os últimos quatro anos defendendo a tese de que o respeito à economia de mercado e a adoção sistemática ao neoliberalismo seriam capazes de nos tirar da crise.
Na defesa das suas teses, eles não hesitaram em desindexar totalmente os salários, deixando aos trabalhadores a árdua tarefa de negociar reajustes nos seus vencimentos em meio à crescente onda de desemprego que assola o País. Não tiveram o menor receio de liberar completamente os preços, apesar dos abusos cometidos pelo empresariado, levando às últimas consequências a teoria do laissez-faire. Não se acanharam de vender as principais mega-estatais do País, mesmo as altamente lucrativas, para formar fundos destinados ao pagamento da dívida pública. Não se envergonharam de eliminar da Constituição Federal direitos históricos, conquistados a duras penas pelos trabalhadores, em nome da ‘‘reforma’’ do Estado.
O mais grave de tudo isto, porém, é que o governo tomou todas estas atitudes ignorando completamente os apelos da sociedade, do empresariado, dos partidos de oposição e até dos seus próprios aliados no Congresso. Nestes quatro anos, o governo fez-se de surdo às reivindicações da Nação, como se a cúpula econômica fosse um areópago no Olimpo e não um grupo de técnicos contratados pelo Estado com o único propósito de servir a Nação. Não é outro motivo pelo qual o País enfrenta, hoje, a pior crise econômica e social da sua história recente.
Diante disto, compreende-se porque, segundo revelou pesquisa divulgada pela ‘‘Folha de S. Paulo’’, a popularidade do presidente da República e o nível de confiança da sociedade no governo despencaram. Quando desfrutava do frescor do poder, em 1995, depois de ganhar as eleições já no primeiro turno, FHC se gabava de ter apoio popular. Hoje 70% dos moradores de São Paulo, onde a pesquisa foi feita, acham que o governo perdeu o controle da crise. No início do governo, as pesquisas apontavam que FHC era considerado o homem mais qualificado para administrar o País. Hoje, 59% dos paulistanos acham que Fernando Henrique Cardoso enganou o povo.
Diante destes números, as recentes declarações do presidente da República a respeito do esforço do governo federal para combater a crise ecoam com ares de ironia. ‘‘Não tenho nada a oferecer a não ser sangue, suor e lágrimas’’, disse FHC, relembrando a antológica frase citada por Winston Churchill durante a 2ª Guerra Mundial. Tivesse sensibilidade para ouvir os clamores populares, Fernando Henrique Cardoso perceberia que, na verdade, o povo brasileiro não exige muito do presidente da República. Dele, os brasileiros querem apenas duas coisas: honestidade e respeito. Honestidade no trato da coisa pública. Respeito à condição miserável de parte expressiva dos brasileiros, o que implica na compreensão da problemática social e no compromisso permanente de trabalhar em defesa dos direitos da maioria. Lamentavelmente, FHC não tem agido deste modo.
Antes, FHC age levando às últimas consequências a Tese de Pareto, segundo o qual ‘‘a teoria é tanto melhor quando mais teórica’’ e a ‘‘prática é tanto melhor quando mais prática’’, como se fosse possível desvincular as duas coisas. Mas há uma diferença significativa entre Pareto e FHC. O primeiro não tinha compromisso com 160 milhões de pessoas e elaborou sua teoria pensando em aprimorar o método de investigação da ciência. De Fernando Henrique, já não se pode dizer a mesma coisa.
- PADRE ROQUE é deputado federal pelo PT/PR e professor universitário licenciado

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