Em algumas partes do mundo, o controle dos recursos hídricos já é tratado como uma questão de equilíbrio geopolítico, assim como o domínio das jazidas petrolíferas. Faz tempo que o assunto motiva o debate. Nos últimos dez anos, aumentou o risco de guerras por causa da disputa pelo controle da água. O Oriente Médio, por exemplo, uma das regiões com maior índice de crescimento populacional, enfrenta a morte de suas fontes naturais: o consumo de água supera as possibilidades de renovação dos recursos hídricos e as raras chuvas não conseguem elevar os níveis de água dos rios aos patamares de outras épocas.
E o Brasil? Nosso país é o único de extensão continental, clima tropical-úmido e com rios perenes em mais de 90% de seu território. Temos a maior descarga de água doce do mundo. São 197.500 metros cúbicos por segundo despejados no Atlântico. Isso equivale a 40% a mais do que a descarga de todos os rios dos Estados Unidos e é 47% superior aos rios canadenses. Nosso problema não é, portanto, quantidade de água. Mas aproveitamento do potencial e da oferta.
Damos mostras sucessivas de que não sabemos utilizar a água de que dispomos. O Brasil acreditou que a solução para a escassez de água estaria na construção de obras para acumular água. Barragens e açudes pipocaram por este País afora como solução para o problema. Investiu-se na engenharia como se esta fosse capaz de, sozinha, matar a sede. Ledo engano. Já passamos da hora de afogarmos a visão patrimonialista que tanto marca nossa cultura.
As distorções estão em todo canto, em plena miséria do sertão. São açudes e projetos de irrigação que custaram uma fortuna ao erário e até hoje não deram o retorno prometido à sociedade. Tudo porque muitos projetos não estão inseridos num planejamento integral, que atente para a infra-estrutura e também para o aproveitamento posterior, com os recursos orçamentários previamente reservados.
O clima semi-árido do Nordeste garante luminosidade, calor constante e baixa umidade relativa do ar, o que, associado à irrigação, significa crescimento acelerado das plantas, maior produtividade e menos pragas. Explorar esse potencial fabuloso da região deveria ser encarado como um desafio. A instalação de agroindústrias orientadas à fruticultura, por exemplo, só tende a potencializar a geração de trabalho.
Por isto, precisamos redefinir o uso correto e limpo da água no Brasil. Antigamente, o principal era a produção de energia elétrica. Agora, a prioridade mudou. A água tem de ser utilizada para o consumo humano e irrigação, ainda mais no Nordeste, uma região com maior carência de água, esta espécie de novo ouro desse século.
RENAN CALHEIROS é ex-ministro da Justiça e líder do PMDB no Senado

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