O novo mapa político - Gaudêncio Torquato
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de outubro de 1998
Gaudêncio Torquato 
O novo mapa político do Brasil não está de todo desenhado, mas já permite divisar contornos. Há, de maneira bem visível, cinco correntes que podem ditar os eixos da política no futuro próximo: o tucanismo, o pefelismo, o oposicionismo, o malufismo e o peemedebismo. Os tucanos e os pefelistas ganharam posições, podendo, ainda, aumentar seus cacifes com a eleição do segundo turno; o oposicionismo se adensa, a partir do crescimento da bancada do PT e novos ganhos no segundo turno; o malufismo poderá acender um farol muito forte e o peemedebismo, apesar da refluxo da bancada federal, ainda é uma corrente importante, pois o partido continua a deter o maior número de parlamentares estaduais do País.
Os tucanos cresceram na esteira da vitória de Fernando Henrique. Poucos previram suas boas possibilidades. Quem poderia prever que um tucano de 35 anos, Marconi Perillo, poderia fazer frente ao imperador de Goiás, Íris Rezende? Podem alavancar ainda mais a corrente, caso Mário Covas e Eduardo Azeredo ganhem em São Paulo e Minas. Nesse caso, o atual governador paulista, José Serra e Tasso Jereissatti formariam o elenco para a disputa presidencial de 2002. Em termos políticos, os tucanos funcionarão como contraponto às barganhas e pressões dos outros partidos aliados. Serão o travesseiro do presidente. Ditarão as regras básicas para o discurso do segundo mandato, principalmente no campo social.
Os pefelistas continuam com a maior bancada na Câmara Federal e podem ganhar o Rio de Janeiro, com César Maia. Nesse caso, disporiam de uma reserva para a próxima disputa presidencial, cujo titular é, sem dúvida, a figura mítica de ACM, que, apesar da idade, parece ganhar força diante da dor, das pressões e da crise. É um político completo. Os pefelistas trabalham de forma monolítica e são orgânicos em termos partidários, o que lhes confere a marca de bons operadores e articuladores. O estatuto da fidelidade partidária, caso seja aprovado, vai dar mais força ao partido. Em termos políticos, darão apoio à Fernando Henrique até as proximidades das eleições presidenciais, quando escolherão caminhos próprios.
O oposicionismo cresce com a ascensão de novos perfis, incluindo governadores (Alagoas, Acre). O PT pode levar a melhor no Rio Grande do Sul e no Distrito Federal. O PDT poderá crescer com Garotinho, no Rio de Janeiro. O discurso será menos radical, porém mais substantivado. São perfis responsáveis e pragmáticos que passam a liderar as oposições. Com a reforma política em início de gestação, vislumbra-se a possibilidade de agregação de núcleos, grupos e propostas. De qualquer forma, modelos antigos vão ficar no baú, como Arraes e Brizola. A derrota de Lula contribuirá para a reciclagem geral das esquerdas e o surgimento de novas lideranças, como Tasso Genro, Genoino, Mercadante.
O malufismo está na porta da esperança. Se Maluf ganhar em São Paulo, os tucanos e pefelistas vão ter de enfrentá-lo em 2002, caso não cheguem a um acordo em torno de um candidato comum. Maluf não tira da cabeça o sonho presidencial, que passa, evidentemente, pela escada do governo de São Paulo. A disputa do segundo turno entre ele e Covas está sendo uma guerra de acusações. Afinal de contas, trata-se da eleição decisiva que abrirá os horizontes políticos do amanhã. São 23 milhões de votos e o eleitorado mais avançado do País.
Por último, os peemedebistas. Não estão mortos. Podem estar um pouco combalidos. Mas o partido detém o maior número de deputados estaduais e conta, ainda, com a máquina administrativa dos municípios, que é a mais forte. A grande possibilidade de Michel Temer continuar a presidir a Câmara Federal dá ao partido uma boa perspectiva de poder. E Michel reúne condições para se transformar em elo - de ligação e harmonia partidária. É sincero, educado, preparado e cultiva amizades por todos os lados. Como terceiro maior partido da Câmara e o primeiro no Senado, o PMDB poderá ganhar a posição de coringa. Como tal, será um trunfo decisivo em 2002.
- GAUDêNCIO TORQUATO, jornalista, é professor universitário em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos).
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