O novo e a novidade
Estamos cheios de novidades e pouco plenos do novo. Saturados pelas mensagens automáticas de um feliz ano-novo, nem paramos para separar a novidade passageira do novo que transforma. A novidade é a armadilha do tempo. Alimenta consumo, cria inseguranças nas vítimas da moda e inventa lixo virtual: as sobras do que ainda poderia ser útil, mas não serve, para alguns, pelo modelo ultrapassado.
O novo é matreiro. Raramente explode como espetáculo. Tem raízes silenciosas, pois é gerado aos poucos, acumula mudanças e pequenas viradas. Não recua. É lento porém irreversível. O novo altera o curso das coisas e pessoas. Em sua tarefa de mexer bem mais fundo, nem sempre é visto como novo. Não aparenta ser tão novo assim.
Já a novidade pode ser até lúdica para aliviar o sufoco diário. O novo pede um pouco mais de esforço. Não surgiu espontâneo nem brotou mágico ou pipocou na onda de algum sucesso. É novo exatamente por ter reunido referências e tradições anteriores. Incorpora até novidades. Sabe mastigar, digerir e devolver revelações antigas na linguagem do momento.
O novo usa disfarces. Pode ser aplicado em diversas épocas da história. O que já foi novo ontem com a mesma chama libertária continua novo hoje. Já a novidade morre na falência dos gostos. Presa aos estilos, dança quando a forma se supera. O novo tem raiz, mas é flexível. Generoso, é capaz de se adaptar a todas as dificuldades só pelo prazer de ser novo, novamente. Como é comprometido, o novo se apaixona em uma cadeia recíproca que ultrapassa corações humanos e toca o próprio coração da Terra. Extrai da fraternidade sua força. Quanto mais se dilui na entrega, mais fica forte na ação transformadora. Age e renuncia aos frutos da ação.
A novidade, usada com mão leve, tempera o tédio da hora. Mas tem uma hora em que desejaremos o novo. Quando o arsenal de truques para ser feliz se esgota na repetição. Só há o velho, novo. A data desta segunda-feira vem plena de significados ao trazer o 01/01/01: o primeiro dia do ano número um, do primeiro mês, no primeiro século do ano um do novo milênio. Zero é o princípio radical. Mas o número um é a confirmação de que aceitamos o desafio de ser novo por dentro e por fora.
Tenhamos a coragem de experimentar um ano novo, mesmo! Algo que surpreenda tantas certezas acumuladas. Tanta carga de poder
mal-usado. Aceitar que luxo é o bem que perdeu o fluxo. Estagnou. Água parada apodrece. Daí implorar desesperada pelo alívio provisório da novidade. Em um ano-século-milênio novos vale ser novo a partir da origem, no ovo.
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília





