A tragédia histórica de 11 de setembro parece ter provado em todos um sabor de perplexidade e um não dito ''bem que estava escrito nas estrelas''. A declaração de guerra pelos terroristas foi citada em vários jornais e pelo presidente da mais potente nação capitalista como ''uma ação demoníaca''.
Os Estados Unidos, invejados pela sua articulação racional e centrados na função da inspiração intelectual, ou seja, o pensamento, de repente, recuperam na palavra o símbolo místico do demônio, em primeira instância tão distante de sua atitude habitual fundamentada nos princípios científicos apolíneos/cartesianos.
Talvez esse sentimento não verbalizado de que ''tudo estava escrito nas estrelas'' decorra da percepção instintual (vide os vários filmes atuais, mesmo americanos, em que cidades como Nova York foram destruídas e subjugadas por uma nova ordem, significando que existe uma certa apreensão no imaginário).
E também do desejo inconfesso de uma humanidade ferida em sua autonomia e descrente em uma vida melhor enquanto não acontece algo radical e apocalíptico, de um lado, e de um sentimento inconsciente de culpa por parte da grande nação que controla o mundo onde a miséria vem se instalando, não apenas na economia tanto como na educação. Isso provoca a decadência vista/revista anunciada e denunciada por historiadores, antropólogos, filósofos e psicólogos do mundo desde a segunda metade do século XVIII.
Enfim, a figura do demônio foi invocada para mais uma vez isentar a todos do comprometimento com a terra e seu povo. Num ato de sublimação, o demônio é o culpado e todos nós (inclusive o presidente Bush!) somos vítimas.
Esse pensamento mágico, somado à participação mística de cumplicidade com a mais potente nação sobre a terra e sua promessa de que punirá o demônio, pode nos deslocar do plano da realidade para um comportamento submisso de esperar para ser cuidado ao invés de tomar atitudes concernentes à realidade.
Há pelo menos 100 anos, Carl Gustav Jung, médico e psicólogo suíço já alertava para o fato de que a nação americana despontava em grande potência, mas devido à sua repressão aos instintos gerava, também, uma grande ''sombra'' à par de sua humanidade, que poderia, num futuro próximo, engolir a humanidade e deflagrar a Terceira Grande Guerra Mundial.
Os instintos reprimidos, a ênfase ao belo e ao bom, em detrimento do feio e mau, ocasiona uma repressão de energia psíquica que inquestionavelmente irá insurgir contra aquele que a rejeitou, numa tentativa desesperada de conseguir seu lugar no cotidiano e na consciência.
Pode-se dizer que o demônio, não aceito como potência, como força que poderia, eventualmente, ser canalizado para abrir novos caminhos e participar de criação, faz agora suas vítimas.
Responder a ele com maior represália não equivale à uma solução duradoura. Antes, é necessário admitir e reconhecer sua diferença dentro de uma categoria de força e não de uma categoria moral, reconhecer sua territorialidade e sua pujança, princípio esse democrático que se esperava ser defendido e cumprido pelo país sede da democracia, embora exija uma envergadura de acolhimento e derrubada de padrões morais que, se revisados de forma coerente e racional, serão denunciados como padrões que só trouxeram discórdias e sofrimento para muitos, benefícios e poder para poucos. Isso seria uma das soluções mais acertadas e mais dignas de uma nação democrata.
Pois se o diferente é feio porque não é igual, ele é tão potente quanto. Chega um momento em que não tem nada a perder, posto que tudo, ou quase tudo, já lhe foi tirado. E se emerge do mundo ''inferior'' com tanta astúcia e organização é para nos alertar de que tem seu poder de transformação e que com a ''sombra'' não se brinca.
Dar o espaço que lhe cabe é uma atitude de sabedoria. Se consultamos as crianças que foram embaladas pelas fadas. Elas poderão nos dizer que a bruxa (sombra) de todos os contos foi sempre aquela rejeitada pela consciência e por isso lançou maldições e/ou provocou conflitos apocalípticos até ser reconhecida e assimilada de forma a também ela se transformar nesse exercício chamado democrático.


- SONIA R. LUNARDON VAZ é psicanalista e presidente do Núcleo de Psicologia Analítica Nise da Silveira, em Londrina

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