O nosso modelo perdido - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de dezembro de 1998
Walmor Maccarini 
Por que haverá de vir uma crise ao Brasil? Muitas pessoas estão dizendo, os jornais publicam, mas quem garante? Já dissemos que a mente e a palavra criam e recriam e tornam tudo possível, mas se as usarmos ao contrário, também acontecerá o contrário. Nada que não se possa mensurar e modificar. A existência, por si só, da turronice instalada na capital política da República será insuficiente para produzir uma crise, não obstante seu vigoroso poder desintegrador. Impossível que não possamos nos desgarrar desse dependente concubinato com o governo e caminhar para a frente, se somos livres, inteligentes, saudáveis e com disposição para o trabalho.
Não temos que temer nada, nem uma possível volta da inflação; afinal, fomos competentíssimos em conviver com ela durante tantas décadas. Inflação com desenvolvimento, talvez este seja o nosso modelo.
Não vivemos, em tempos recentes, nenhuma catástrofe que justifique nossa crença no caos. Estamos envolvidos numa guerra? Há racionamento de combustível? De água e alimento? Falta-nos óleo para a calefação, nos nossos seis meses de neve? (epa, não temos esse problema). Algum fungo destruiu a produtividade de nossas terras? Estamos proibidos de plantar e colher? Impedidos de trabalhar? Alguma chuva de meteoros destruiu nossos abrigos? Uma seca esturricou a terra? Morreram nossos rebanhos, nossas vacas leiteiras? Algum artrópode encalacrou as engrenagens de nossas fábricas? Terão nossos trabalhadores ficado atrofiados de braços e mãos? Algum vírus oriundo dos umbrais embotou nossas mentes, impedindo-nos de pensar e raciocinar? Seres alienígenas invadiram a Terra e nos prostraram em imobilidade? Os mares transbordaram, encurralando-nos no alto das montanhas? O sol desviou-se do Brasil em seu roteiro diário? A lua já não transita por aqui? Desconectaram a tomada que acende as estrelas? Seres intergalácticos roubaram nossas mulheres? Ou raptaram delas os seus homens? Sequestraram nossos filhos? Estão lacrados os nossos supermercados? As nossas escolas? Desviaram as águas de nossos rios e de nossas torneiras? Estamos impedidos de conversar com os vizinhos e com nossos amigos? Cimentaram as areias de nossas praias e fizeram cessar o fluxo e o refluxo das ondas? Bloquearam os caminhos e já não podemos viajar para os lugares dos nossos sonhos? Pararam a música e interditaram a dança? Proibiram o nosso churrasco domingueiro e lacraram o barril do chope? Entramos na lei-seca? Impediram-nos de calçar nossos sapatos e nos deixaram nus? Algum poder não conhecido nos dominou e extirpou de nosso peito o coração? Apertou nossa garganta impedindo-a de bradar e de cantar?
Que diabo aconteceu conosco?
Vozes do sobrenatural nos convenceram da proximidade inevitável do fim do mundo? A Nação está se lançando em debandada na direção do mar, para o suicídio coletivo? Ou subiu aos penhascos, para de lá precipitar-se, em holocausto pelo triunfo da capitulação? A terra brasileira fendeu-se e engoliu metade de nossas famílias? Dragões cuspindo fogo emergiram das entranhas da terra e ameaçam nossa sobrevivência? Paira sobre nós a ameaça da volta dos dinossauros para destruir nossas plantações e nossas aldeias? A floresta amazônica arde em chamas? Os sem-terra assumiram o poder e montam guarda defronte de nossas casas? Saddam Hussein está declarando guerra ao Brasil? Salteadores navegando arcas interestelares vieram se apossar do nosso ouro?
Um poder alienígena confundiu nosso entendimento, embaralhou nossa língua, fez-nos perder a identidade? Deixamos de ser brasileiros? Uma cegueira tomou conta de todos? O sol deixou de iluminar o dia e estamos vivendo a treva?
Por que vislumbramos tanta crise? A de 99, que ainda nem chegou e nem se sabe se chegará, já é anunciada como maior que a de 98!
Perdemos todas as nossas sementes e as nossas matrizes? Já nem podemos mais crescer e multiplicar-nos? Olhos invisíveis vigiam nossos aposentos e nos impedem de exercer a sublimidade do amor? Os filhos-dos-anjos sequestraram e mantêm cativas nossas sabinas? Nós homens ficamos eunucos? Deixamos de ser o País tropical de 360 dias anuais de sol? Nos proibiram de jogar futebol? Perdemos nossa nacionalidade e não somos o Brasil dos gols mil? Estamos fora da próxima Copa? O Fundo Monetário confiscou o Corinthians, o São Paulo, o Palmeiras?
Nós olhamos ao redor e não vislumbramos nenhuma dessas tragédias enumeradas. Por que será, então, que virá essa crise? De que forma ela aportará no Brasil? Será virtual? Então virá pela Internet?
Ou quem sabe essa crise está só em nossas cabeças? Se estiver, aí então pode ser perigosa! Tivessem as nações do mundo as potencialidades do Brasil e seriam impérios. Algumas já o são, com recursos infinitamente menores.
Nós, povo e governantes, devíamos é nos envergonhar!
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina


