Ayrton Baptista
Recente pesquisa nacional apontou novamente o desemprego como o maior temor dos brasileiros. Somente 20% dizem não estar preocupados. Devem ser os patrões. Há percentual para todos os gostos. Mas seria, hoje, realmente necessária uma pesquisa sobre o desemprego? Somente para se ter números confiáveis, talvez, pois o problema é por demais visível.
Trata-se de uma questão que atinge as grandes potências, não sendo, pois, uma preocupação apenas do brasileiro ou do habitante do Terceiro Mundo. A mídia joga-nos diariamente de todas as formas as facetas brutais que levam famílias ao desespero e homens e mulheres com tradição de trabalho a mendigar ou a aceitar um serviço abaixo do seu nível de capacidade.
Agora, no Festival de Cannes, na França, quem ganhou a Palma de Ouro foi um filme que abordou o drama de uma desempregada. Seu enredo, neste momento, pouco importa. Importa, sim, que o desemprego é alvo da preocupação generalizada, exceção talvez aos Estados Unidos, onde grassa um onda de felicidade e quase pleno emprego.
Por aqui, voltemos à dura realidade. São sempre em torno de 80% os números dos pesquisados que dizem temerem em primeiro lugar a falta de trabalho. E tanto isso preocupa, que o nosso Sul Maravilha, São Paulo à frente, importou do Nordeste as chamadas ‘‘frentes de trabalho’’, promovendo através da prefeitura paulistana a da Frente Sindical um festival de filas, em que 50 mil pessoas disputaram os 10 mil lugares possíveis. Foi uma dádiva, um esforço louvável, talvez só praticado pela dor de ver um semelhante sem condições mínimas para o sustento da família. Na fila, portadores de diploma, um papel cada vez mais disputado e, infelizmente, nem sempre capaz de proporcionar colocação digna.
O que se viu e o que se vê são declarações que ao brasileiro já se tornou uma repetição: após anos de espera - meses seria menos penoso - nada encontrando ao nível desejado, aceita-se, sem desonra, o que se lhes oferece. Nisso está uma demonstração do caráter do brasileiro, ainda procurando serviço, uma ocupação, mostrando que outros caminhos mais fáceis podem ser evitados face uma sólida formação cristã.
Compreende-se que o avanço tecnológico está levando as empresas a trocar o homem pela máquina. Charles Chaplin, em ‘‘Tempos Modernos’’, já nos anos 30, cinema mudo, mostrou o drama do apertador de roscas, como a indicar que logo estaríamos todos diante de problemas talvez insolúveis para as diferentes classes de trabalhadores, com a tecnologia sobrepondo-se em toda a linha.
E nós aqui no Terceiro Mundo, no Brasil jovem, com milhões de rapazes e moças sendo jogados anualmente no mercado, como ficamos?
Por isso tudo, é que se clamam medidas governamentais capazes de amenizar esse grande problema. Não seria demais lembrar-se que somos nós que formamos os governos, que os constituímos justamente para que sejam tomadas medidas que atendam aos anseios mínimos de todo um povo.
Não se fale em estatismo, os novos tempos ensinam não ser tarefa governamental cuidar de tudo, mas sim de proporcionar meios para que o cidadão tenha condições, neste caso, de encaminhar-se para um trabalho justo, com um salário justo na manutenção mínima de uma vida justa.
- AYRTON BAPTISTA é jornalista em Curitiba

mockup