O nosso
faroeste
caboclo
Kido Guerra
Vale perguntar: que fenômeno ocorre no Brasil onde muitos políticos eleitos têm sérios problemas com a Justiça e folhas corridas no lugar de curriculum vitae? É o exercício de funções públicas que os corrompe ou eles usam a política para ser acobertados?
O que acontece hoje no Estado do Acre é exemplar. Depois da cassação do coronel-deputado-bandido Hildebrando Pascoal, eleito pelo PFL do Acre, acusado de integrar uma quadrilha de traficantes e liderar um esquadrão da morte em seu Estado, constatou-se que não se trata de um caso isolado.
O primeiro suplente, José Aleksandro, empossado deputado federal na vaga de Hildebrando Pascoal, também está sob suspeita e já teve sua cassação pedida pela CPI do Narcotráfico, acusado de envolvimento em fraude e desvio de dinheiro público. Assim como o segundo suplente, o terceiro, o quarto...
O Acre, aliás, há anos frequenta as primeiras páginas dos principais jornais brasileiros com notícias desabonadoras: desde a denúncia de compra de votos de deputados acreanos para a aprovação da emenda constitucional permitindo a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. Sem falar no assassinato de um governador, Edmundo Pinto, provavelmente pela mesma turma que está presa em Brasília.
No início do ano passado, quando já aparecia como forte candidato ao governo do Estado do Acre, o ex-prefeito da capital, Rio Branco, Jorge Viana, petista que entrou na política por acaso, anunciava à imprensa e ao próprio presidente Fernando Henrique Cardoso a suspeita de existência de um plano de seus adversários diretos (leia-se o PFL do então governador Orleir Cameli e Hildebrando Pascoal) para tirá-lo das eleições. No melhor estilo faroeste caboclo: eliminando-o.
Mas o distante Acre (tão distante que seus habitantes costumam dizer que o Estado fica ‘‘longe demais do Brasil’’) não está sozinho na sucessão de escândalos e crimes.
Na renomada Alagoas, por exemplo, que também frequenta as capas dos jornais com crimes e histórias escabrosas envolvendo políticos, autoridades e pistoleiros, o assassinato foi a solução aparentemente encontrada por Talvane Albuquerque para continuar na Câmara dos Deputados. Talvane também foi cassado, sob a acusação de ter encomendado a morte da deputada Ceci Cunha, de quem era suplente.
Acre, Alagoas, e também Mato Grosso, onde mataram o juiz encarregado de investigar falcatruas no Judiciário estadual, Leopoldino do Amaral. Ele foi assassinado no Paraguai. Sem falar no Piauí, e agora, no Espírito Santo. E outros. E vai por aí. Exemplos não faltam.
O fato é que o banditismo praticado no meio político e entre autoridades constituídas não é exclusividade de Estados, digamos, periféricos. Haja vista as maracutaias de vereadores de São Paulo e do juiz paulista Nicolau, acusado pelo genro preterido, e todos os envolvidos no superfaturamento da obra do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), ainda sob investigação do Congresso. As denúncias respingaram até em Brasília.
É muito triste constatar: infelizmente, a bandalheira é generalizada. Isso, às portas do terceiro milênio e às vésperas das comemorações dos 500 anos do País.
- KIDO GUERRA é jornalista em Brasília

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