O nosso calendário de tragédias
Arlete Salvador
O calendário deste ano reserva algumas surpresas. O Carnaval, por exemplo, será em fevereiro. A Quarta-Feira de Cinzas vai cair na quarta-feira logo depois da terça de Carnaval. A Sexta-Feira da Paixão coincidirá com uma sexta-feira, seguindo-se o Sábado de Aleluia e o Domingo de Páscoa. O Dia de Tiradentes, já está decidido, será em 21 de abril, feriado nacional. O Natal será comemorado em 25 de dezembro e a chegada do Ano-Novo em 1º de janeiro de 2001. Basta checar o calendário. Está tudo lá.
São eventos tão óbvios quanto as chuvas de verão que, como o nome diz, desabam sobre o País no verão – e não no outono ou no inverno. Chegam entre janeiro e março. Assim é todos os anos. Se o calendário e a natureza são tão previsíveis, por que o espanto com as inundações que desabrigaram tantos brasileiros nos últimos dias – como elas estão acontecendo com força sobretudo nos Estados de Minas Gerais e São Paulo? Vieram no tempo certo, porque este é o tempo das chuvas de verão e das inundações.
Linhas de crédito de emergência, como as criadas para atender às famílias atingidas pelas tempestades deste ano, deveriam ser de emergência mesmo. Como o próprio nome diz, medidas de emergência são providências tomadas às pressas quando um acontecimento inesperado acontece – algo como um terremoto no Rio de Janeiro ou uma nevasca em Minas Gerais. Aí, sim, se poderia dizer que a natureza endoidou de vez, pegou todo mundo desprevenido e o jeito foi remediar com uma solução de emergência.
As chuvas de verão, ao contrário, são esperadíssimas e com elas vêm as inundações, as enchentes e as tempestades que destroem casas, viadutos e pontes. Estão marcadas no calendário, assim como o Carnaval, o Natal e o ano-novo. É possível ser surpreendido pela quantidade de água que desaba do céu em poucos dias, mas ser pego de calças curtas pela chegada da temporada de chuvas é como ignorar que o Domingo de Ramos cai num domingo.
Tão previsível quanto as tempestades tropicais é a falta de estrutura dos serviços públicos para evitar que desgraças ocorraram e pessoas percam bens e a vida debaixo d’água. Esse é um fenômeno que também está marcado no calendário. Surpresa seria encontrar prefeituras que retiraram pessoas de locais perigosos antes da chegada das chuvas. Ou serviços de emergência preparados para receber desabrigados com a possível chegada de uma tempestade mais forte e destruidora.
Seria esperar demais. No calendário brasileiro, passada a euforia das compras de Natal e das festas de ano-novo, é certo que as chuvas virão e as autoridades serão surpreendidas pela força das águas e pelo número elevadíssimo de famílias desabrigadas.
Programas emergenciais de atendimento e ajuda serão montados às pressas em escolas e em outros locais. Depois das enchentes, virão as doenças trazidas pelas águas e será uma surpresa outra vez. Quando a última enchente tiver passado, será a hora do Carnaval.
E assim o País segue o calendário das tragédias anuais.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo