O Nobel da Guerra
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de julho de 1998
Hélio Doyle 
Se existisse um Prêmio Nobel da Guerra, os candidatos seriam muitos, mas poucos teriam tantas chances quanto o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, também conhecido como Bibi. É digno de admiração o esforço que Netanyahu faz para impedir a paz no Oriente Médio.
Desde que assumiu, meses depois do assassinato de Yitzhak Rabin, Netanyahu tem deixado clara sua oposição aos Acordos de Oslo, assinados entre israelenses e palestinos para assegurar a paz na região. As estratégias e as ações cotidianas do governo chefiado por Netanyahu não deixam margem a qualquer dúvida quanto às suas intenções beligerantes.
Não são só os árabes e os palestinos que criticam Netanyahu e seu espírito antipacifista. Há poucos dias, o primeiro-ministro foi duramente criticado pelo presidente de Israel, Ezee Weizman, que chegou a pedir a antecipação das eleições parlamentares para que Netanyahu seja substituído.
Weizman - que não tem poder, pois suas funções limitam-se às de chefe de Estado - refletiu as preocupações de uma boa parcela da população israelense com o processo de paz. Há 16 meses as negociações estão paralisadas.
Netanyahu tem sofrido críticas até dos Estados Unidos, incondicionais aliados de Israel. Os norte-americanos têm interesse no processo de paz e apresentaram uma proposta para executá-lo, mas Netanyahu simplesmente a ignora. De vez em quando leva reprimendas da secretária de Estado Madeleine Albright, mas como sabe que os norte-americanos jamais abandonarão Israel, não se abala.
O crescente isolamento das posições inflexíveis e belicistas do governo israelense ficou mais nítido esta semana, quando a ONU aprovou um novo e superior status para os palestinos. Foram apenas quatro votos contra: Israel, Estados Unidos e dois pequenos países-satélites dos norte-americanos.
Agora, os serviços de inteligência militar de Israel traçam um cenário preocupante: a de uma guerra na região em 1999. Mais precisamente, em maio do próximo ano, quando os palestinos pretendem proclamar a criação de um Estado independente.
O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, já anunciou essa intenção, caso não haja uma solução para os territórios de Gaza e da Cisjordânia. A decisão da ONU já é quase um reconhecimento da Palestina e, persistindo a política de Netanyahu, não é difícil prever que muitos países endossarão o novo Estado.
Israel, naturalmente, opõe-se à criação do Estado Palestino e ameaça tomar medidas unilaterais se houver a proclamação prometida por Arafat. Medidas que, certamente, incluiriam a tentativa de retomar as poucas áreas ocupadas que foram devolvidas aos palestinos.
Isso provocaria o conflito previsto pelos serviços de inteligência israelenses: manifestações violentas de rua, respaldadas por 36 mil palestinos armados e comandos especiais treinados para agir contra os assentamentos israelenses nos territórios ocupados.
Pelo jeito, é isso que Netanyahu quer. Se a proposta de antecipar eleições não vingar, o cenário traçado pode mesmo se realizar. E aí, não tem para ninguém: Netanyahu receberá seu desejado Prêmio Nobel da Guerra.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília


