O nó górdio e o ovo de Colombo
Gaudêncio Torquato
Há, no País, uma questão, para alguns até um paradoxo, que deixa perplexos setores da sociedade, particularmente os formadores de opinião: por que o mais preparado presidente da história republicana consegue ser um dos mais impopulares? A inquietação se deve ao fato de muitos imaginarem que um presidente com vasta bagagem cultural e científica deva ser necessariamente popular. Com tantos conhecimentos acumulados, tanta sabedoria, sabendo lidar com razão e emoção, Fernando Henrique agregaria, teoricamente, as condições para realizar um governo prestigiado e aplaudido pelo povo. Mas a prática mostra o contrário. Por que isso ocorre?
A primeira razão está na falta de bússola. O governo não possui uma grande estratégia. Trabalha no varejo. Sem rumo, fica tateando à procura de pontos de contato com os grupos sociais. Perde-se no meio da floresta de problemas. Se o PPA (Plano Plurianual) é o eixo estratégico do governo, aparece tarde e com estatísticas macroeconômicas inconvincentes.
A segunda razão é a insistência em prosseguir na direção errada. Sabe-se que a estrutura social está desestruturada. Os projetos sociais – cestas básicas do Programa Comunidade Solidária, por exemplo – foram quase completamente desmontados. O desemprego é assombroso. A violência galopante é a fotografia estúpida da miséria dos cordões metropolitanos. O governo não está sabendo selecionar projetos sociais ou fazer sua correção a tempo. E, assim, não contempla aspirações e expectativas da população.
A terceira razão para a impopularidade é a precária operação dos projetos escolhidos. Para aprovar determinados projetos, o Executivo acaba pagando um preço político exorbitante. Ou um preço econômico que não compensa. A reforma da Previdência está pela metade. Para chegar ao atual formato, que ainda não é o ideal para sanar os cofres públicos, o governo teve que se desdobrar. Outra razão para o descalabro está no deficiente gerenciamento das ações governamentais, precarizando a capacidade de executar decisões com eficiência e oportunidade. A linguagem é desarmônica. Everardo Maciel, da Receita, quer a CPMF permanente. O novo ministro Tápias, do Desenvolvimento, rejeita a idéia.
Mais uma razão é a tibieza do presidente, um homem que fez do diálogo não um meio mas um fim. Fernando Henrique joga palavras a torto e a direito, transformando a elocubração num exercício rotineiro capenga, que se volta contra a própria imagem. Ou seja, torna-se vítima de um inquestionável valor positivo, que é o domínio da expressão. Mas a banalização do discurso – com as recorrentes aulas no Palácio do Planalto – rebaixa a eloquência.
Os cidadãos continuam a admirar o presidente, pelo fato de ter dado ao País uma moeda estável e pelos dotes intelectuais. Não o confunde com perfis corruptos ou comprometidos com esquemas aéticos. Mas passaram a ter muita raiva, ao perceberem que ele não põe a mão na massa, não chega perto do povo. É frio e distante, uma mistura de arrogância e fleugma, uma espécie de secretário-geral das Nações Unidas em estágio na Presidência do Brasil.
Todo líder possui uma qualidade notável: a de antever possibilidades, quando os outros só vêem restrições. Dois casos clássicos demonstram a capacidade estratégica de um líder. O primeiro envolve Alexandre Magno. Quem conseguisse desatar o nó que unia o jugo à lança do carro de Górdio, rei da Frígia, dominaria a Ásia. Muitos tentaram. Foram a Alexandre. Ele tinha duas opções: desatar o nó ou cortá-lo com a espada. Optou pela via mais rápida e certeira com um golpe forte. Sabia que perderia tempo tentando desatá-lo.
O segundo caso é o ovo de Colombo. Levaram um ovo para o almirante e pediram que ele o equilibrasse. Com um pouco de força, Colombo colocou o ovo em posição vertical sobre a mesa. Fernando Henrique gosta de fazer previsões em suas aulas. Tudo dará certo, segundo ele. A questão está em descobrir se ele tem a determinação férrea de Alexandre ou a matreirice de Colombo. Há quem diga que ele passaria muito tempo estudando as alternativas, perdendo a Ásia e iniciando o novo milênio com o ovo rolando sobre a mesa.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político
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