A lua de mel de Lula está chegando ao fim. A fase do ''Lulinha, paz e amor'', slogan melífluo do laboratório de Duda Mendonça para caracterizar o distanciamento do candidato de uma campanha que é uma guerra de muitas e violentas batalhas, cede espaço para o ciclo do ''Lulão, guerra e sangue''. Até o presente, Lula foi preservado de ataques contundentes. Doravante, terá de se deslocar ao centro do ringue, não por vontade própria ou determinação de seus marqueteiros, mas pela inevitável necessidade de se defender e se prevenir contra os ataques a serem desfechados contra seu perfil, que fazem parte da estratégia tucana para desconstruir a imagem do ''candidato acima de tudo e de todos''.
Não é fácil desmontar um conceito que se torna arraigado nos amplos espaços da opinião pública. Mais do que outros candidatos, Lula trabalhou nas últimas três décadas para fixar a imagem de oposicionista, intérprete sensível aos anseios da sociedade e representante mais forte do conceito de mudança. A seu favor, conta com um acentuado desejo da maioria da população para mudar os rumos da política econômica. E para ganhar a confiança do eleitorado, principalmente de estratos médios para cima, aceitou a edulcoração do perfil, com as pílulas receitadas para aprimorar e adoçar o discurso, arrumar a linguagem e compor harmônica e modernamente o visual. Fez a lição de casa, passou a circular no meio das elites, correu o país, abriu alianças à direita e pôs um freio nos radicais do PT. Tem dado certo. Contra Lula, pesam exemplos negativos de administrações petistas e dissonâncias relacionadas à falta de preparo e experiência.
A se confirmar a possibilidade de Serra ser o rival de Lula na reta final, o efeito imediato será a antecipação do segundo turno, que se abre com os primeiros ataques entre ambos. A antecipação é fundamental para Serra, porque a campanha do segundo turno, muito curta, não conseguiria descolar o conceito de Lula do sistema de cognição do eleitorado, pelo menos nos níveis apropriados para derrubá-lo. Ou seja, quanto mais curta a campanha, melhor para Lula e pior para Serra. O processo de absorção e internalização de uma idéia leva tempo. Primeiro, o eleitor é ''laçado'' pela rede de comunicação, a seguir, toma conhecimento dos fatos, coisa que nem sempre se dá com os primeiros programas ou ataques, e é banhado, na sequência, pelas ondas de irradiação de opinião. A tomada de decisão vai se fechando com as conversas entre amigos e interlocutores diversos.
Quando o ataque é frontal e mortal, ou seja, com indiscutível possibilidade de que a acusação seja verdadeira, até pode causar efeito imediato. Esse é o caso de gafes ou fatos de alta gravidade que comprometam o conceito ético e moral do candidato, como denúncias de envolvimento em quadrilhas e gangues, beneficiamento de grupos ou casos de enriquecimento pessoal. Não será por esse campo que a batalha entre Serra e Lula será travada, até porque são conhecidas suas trajetórias de pessoas de bem. As teclas da inexperiência e do despreparo de Lula serão, mais uma vez, usadas, com a inevitável pergunta sobre quem é o mais preparado. E Lula se apoiará na recorrente questão sobre a viabilidade e eficácia de propostas de Serra, com o argumento de que o tucano fez parte de um governo que prometeu as mesmas coisas e não cumpriu.
Os contrapontos estão delimitados: Lula não tem capacidade, não é preparado e lhe falta experiência de governo. Serra não vai fazer o que promete, enganando mais uma vez o povo, como Fernando Henrique. Como o eleitor reagirá a esses argumentos? Esse será o nó do marketing.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político

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