O new Tiradentes - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de janeiro de 1999
Maria Lucia Victor Barbosa 
Não sou economista, portanto não me atrevo a incursionar em área de tamanha complexidade como fazem tantos que não possuem a formação necessária. Percebo, contudo, que no Brasil é espantosa a quantidade de técnicos de futebol, economistas, escritores, cientistas políticos aos montes, empreiteiros e outras sumidades de araque que não passam de palpiteiros de botequim, de gurus de almanaque, de falastrões que teorizam sobre qualquer tema e que agora andam formulando teses sobre a crise brasileira desencadeada pelo irresponsável governador de Minas Gerais.
Esse tipo de imaginação tão fértil, que se transforma em mentira descarada, pode ser atribuida à própria essência humana, mas inegavelmente transborda de nossa peculiar cultura, conforme analisei exaustivamente no meu livro América Latina, em busca do paraíso perdido. Entretanto, como é impossível repetir toda a argumentação, apenas quero recordar uma citação que empreguei de Carlos Rangel, extraída de sua obra Do bom selvagem ao bom revolucionário, pois a mentirada que hoje se espalha fartamente por todos os nossos quadrantes tem muito a ver com a arte da simulação, com a encenação das aparências que entre nós se enraizou para depois dar com fartura seus frutos de irresponsabilidade:
A sociedade latino-americana se satisfaz facilmente com as aparências: aparência de boa conduta, aparência de responsabilidade familiar e paterna, aparência de talento, aparência de probidade, aparência de erudição, aparência de patriotismo, aparência de radicalismo revolucionário, aparência de heterossexualidade, aparência de religiosidade.
É possível, também, conforme explicou Octavio Paz, que mintamos por fantasia, por desespero ou para superar nossa vida sórdida. Enfim, há várias explicações para esta compulsão que o homem tem para mentir, e que tem sua contrapartida no gosto que as pessoas sentem ao serem enganadas. Sobre o tema já se debruçaram pensadores eminentes como Freud, no qual se encontra a mesma complacência de Octavio Paz para com os mentirosos. Porém, já aprendi bem mais sobre a adoração que os homens têm à mentira e o ódio que dedicam à verdade, com o brilhante jornalista norte-americano H. L. Mencken. Em 1994, eu o citei neste mesmo Espaço Aberto, e creio que acabei assim por difundir sua obra, O livro dos insultos.
Agora, volto novamente ao genial estilo de Mencken, e ao mesmo livro, para tentar clarificar o que venho tratando neste artigo: Mas, se a verdade é sempre mal recebida, o erro é recebido de braços abertos. Qualquer homem que invente uma nova imbecilidade recebe salvas de palmas e torna-se o dono da verdade; para as grandes massas, ele é o beau ideal da humanidade. Dê um giro pelos últimos mil anos da História e você descobrirá que 90% dos ídolos populares do mundo - não me refiro aos heróis de pequenas seitas, mas ídolos mundialmente populares - não passaram de mascates baratos de nonsense. Tem sido assim em política, religião e em qualquer outro departamento do pensamento humano. Mesmo tal mascate já enfrentou alguma oposição, uma vez ou outra, de críticos que o denunciaram como charlatão e o refutaram assim que ele abriu a boca. Mas, ao lado de cada um deles, havia a titânica força da credulidade humana, e isto bastava para destruir seus inimigos e estabelecer sua imortalidade.
Para dar um bom exemplo de um mascate, ou melhor, de um camelô barato de nonsense na nossa atual conjuntura, citaria Itamar Franco. Como não sou economista, posso afirmar sem me basear em números, siglas e cálculos complicados - que têm às vezes o mesmo valor das previsões meteorológicas - que o governador de Minas apenas quer de novo ser presidente da República, e para isto, ele jogou farofa no ventilador da estabilidade econômica e se autoproclamou Tiradentes. Depois, chamou outros governadores insurretos, de tendência perdulária, autoritária, e pouco afeitos às técnicas administrativas, jogou o tapete vermelho e se pavoneou diante de câmeras de televisão dando recados duros ao presidente Fernando Henrique.
E se o poderoso costuma ter algo de paranóico em termos de mania de grandeza e perseguição, Itamar Franco, delirando diante da queda das Bolsas em todo o mundo, franqueou internacionalmente um dos mais estonteantes espetáculos do hospício da política. Suas balelas, contudo, foram acatadas com imensa euforia por exportadores, agiotas, saudosistas da inflação e toda aquela imensa maioria que prefere especular do que trabalhar e produzir. Enquanto isso, montado em seu factóide, feliz da vida, Itamar parece cantarolar entre gargalhadas: E que tudo mais vá pro inferno, ô, ô. Para sua maior felicidade, imediatamente uma enorme chusma de admiradores o aclamou com salvas de palmas, além, é claro, de entronizá-lo no panteão dos heróis como o new Tiradentes.
A interpretação para tudo isso reside numa simples verdade: todo o êxito do homem do topete pode ser explicada pela força titânica da credulidade humana. Afinal, é facílimo induzir as massas ao erro. Deste modo, ruim agora é o presidente Fernando Henrique, que possibilitou uma economia estabilizada na qual melhorou a qualidade de vida do povo brasileiro, o qual se beneficiou enquanto pôde do Plano Real.
Posso falar dessas coisas porque não sou economista. Economista mesmo é o líder do governo no Congresso, o deputado Luiz Carlos Hauly. E por sua trajetória e seu atual cargo, ele é um paranaense ilustre do qual o Brasil precisa. Tomara que tenha forças para liderar seus pares, coisa difícil de se fazer, apesar de estarem eles no momento sendo impulsionados pelo efeito pão de queijo às avessas. Aliás, em meio a tantos camelôs de nonsense, precisamos de políticos como o presidente Fernando Henrique Cardoso, Luiz Carlos Hauly, Rafael Greca, Antônio Carlos Magalhães. Por sinal eu votaria neste último para presidente da República, justamente porque ele não é um new Tiradentes.


