O ''New Deal'' de Lula
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quinta-feira, 17 de abril de 2003
Marcos Rogério Gomes 
Diante da incipiente experiência governamental de Luiz Inácio Lula da Silva e sua equipe, acredito ser saudável perceber a viabilidade de suas diretrizes, confrontando suas propostas de reforma com aquelas que no governo Roosevelt nortearam a reestruturação econômica, política e social dos Estados Unidos. O governo do ''New Deal'', tantas vezes lembrado por Lula como exemplo de criatividade e renovação, merece um atento olhar retrospectivo, pois contém elementos que de fato convergem para o arcabouço administrativo que governo e PT tentam hoje estabelecer no Brasil.
Apesar de algumas diferenças estruturais saltarem aos olhos quando se compara os Estados Unidos de 1933 com o Brasil de agora e as análises comparativas se justificam justamente por isso , perspectivar o passado como forma de balizar o presente significa não sair às cegas para o tiroteio, embora essa quase ressaca neoliberal ainda turve bastante os caminhos a seguir.
Franklin D. Roosevelt, cujo governo esteve submetido à deflagração da Depressão de 1929, teve como tarefa sanar o caos financeiro, reabilitar a renda do trabalhador, diminuir o desemprego e criar políticas que incentivassem a produção, alternando conservadorismo com rupturas, demonstrando flexibilidade e aumentando o papel do Estado enquanto ator social.
Ao abandonar o laissez-faire e proporcionar a politização da área trabalhista, acabou sendo acusado, não por poucos, de baixar a guarda para o perigo vermelho e comprometer as sólidas instituições americanas, em função de um governo irresponsável e experimental. No fundo, forjava-se ali uma política de Estado de eclético instrumental capitalista, que apesar de investir a longo prazo e apertar o cinto quando preciso, soube lidar com as contradições entre políticas pública e industrial, entendendo-as como forças dinâmicas que proporcionariam o crescimento do país.
A despeito do medo de ser incompetente, da visível falta de recursos, além da improvável autonomia financeira a curto prazo, não me parece que o governo Lula fuja excessivamente de tais princípios. Como a gestão do aristocrata do Hudson no período entre-guerras, o governo do operário do ABC se inicia sem dizer exatamente a que veio: problemático, indefinido, porém sóbrio, dá-nos, de chofre, uma discreta impressão de que nada mudou.
MARCOS ROGÉRIO GOMES é aluno de pós-graduação em História Social pela Universidade Estadual de Londrina


