O nepotismo esclarecido
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de janeiro de 1997
José Nêumanne 
A historiografia registra uma expressão que protagonizou capítulos importantes na política de todos os tempos: o despotismo esclarecido. Ele joga no mesmo caldeirão de sopa um ingrediente inevitavelmente mau, o despotismo, atitude que implica falta de liberdade e crueldade, para dizer o mínimo, e outro indiscutivelmente bom, o refinamento, a cultura, a civilização.
Não faltam exemplos de estadistas que atenuaram os defeitos de sua vontade férrea com o brilho de sua inteligência. A casa dos Bourbons forneceu um modelo exemplar na figura de Luís XIV, que, em seu longo reinado, cunhou as duas frases basilares da gestão personalista. A primeira - LÉtat cest moi, ou seja, O Estado sou eu - consagra, de forma absoluta, a fulanização (para usar neologismo da preferência de nosso Fernando II) do bem público na pessoa privada do Rei. A segunda - Aprés moi, le déluge ou seja, depois de mim, o dilúvio -, contudo, radicaliza tal personificação até o ponto de não admitir a sucessão, nem mesmo a hereditária, por unção divina.
As duas sentenças marcam o despotismo, então, no que ele tem de mais caro. Quanto ao esclarecimento, ele também se explica de forma cabal nessa figura histórica. Pois foi no esplendor da corte do soi-disant Rei Sol, que a França fortaleceu sua condição de usina geradora e irradiadora da beleza estética e da perenidade cultural.
Mas o déspota esclarecido não assitiu apenas a espetáculos pirotécnicos nos belíssimos jardins de Versalhes, a mais famosa propriedade dos subúrbios de Paris. Frederico II, da Prússia, foi fundamental na forja onde se fundiram a têmpera guerreira e os impulsos geniais da música e da filosofia alemãs. A Rainha Cristina, da Suécia, e o Marquês de Pombal, em Portugal, levaram o conceito exemplar à Escandinávia e até à travessia oceânica.
Esse carinho com a
mão dos outros se
disfarça sob o manto
da competência técnica
O mercantilismo da corte de Avis foi muito generoso na importação para a colônia de traços da brutalidade lusitana, mas, antes disso, semeou nos trópicos, ainda com mais abundância, as sementes de um velho hábito que os romanos atribuíram semanticamente à generosidade dos tios - o nepotismo. A prática de proteger os sobrinhos (e outros parentes, apesar de a etimologia ter contemplado apenas aqueles) se iniciou com o escrivão da frota de Cabral, Pero Vaz de Caminha, pedindo um favorzinho para o genro na carta em que narrou ao Venturoso rei Manuel as graças da recente conquista continental.
De então para estes tempos, a crônica do nepotismo tem sido fortalecida pela confusão estabelecida entre o público e o privado na promiscuidade das capitanias hereditárias e do coronelismo. A tentativa de modernizar o país, nesta quadra de nossa vida, está expondo as fímbrias de um novo tipo de nepotismo, em que os beneficiários não são apenas sobrinhos e genros, mas também maridos, mulheres, filhos e até primos distantes. Um juiz da Justiça do Trabalho em João Pessoa bateu sozinho o recorde secular.
As liberdades democráticas não são garantias contra o nepotismo. Ao contrário do que se poderia esperar, as últimas eleições municipais parecem ter exacerbado o afeto familiar de nossos políticos profissionais. Só que esse carinho com a mão dos outros agora se disfarça sob o manto politicamente correto da competência técnica. É o nepotismo autoproclamado esclarecido.
Ele tem duas vertentes. Numa delas, o gestor público escolhe na copa seus assessores por considerá-los os nomes certos para preencher lacunas administrativas. É o caso da prefeita de Natal, Vilma de Faria, que defendeu, cândida, mas vigorosamente, a competência de todos os parentes que nomeou, sendo um deles o literalmente consorte, uma espécie de pau-pra-toda-obra, na prática o manda-chuva da prefeitura da capital do Rio Grande do Norte. Ele veio para provar que atrás de uma mulher ilustre sempre há um homem esperto.
Mas não se pode atribuir o comportamento somente à herança do coronelismo no Nordeste. Pertinho de São Paulo se desenvolve uma manifestação original da síndrome secular. Empossado na Secretaria de Esportes e Turismo de Itaquaquecetuba, o pugilista Adilson Rodrigues, o Maguila, nomeou a mulher para o papel exercido pelo marido da prefeita de Natal. Segundo a própria assessora confessou, ela está lá para evitar que o marido faça muita besteira. É um novo tipo de nepotismo: nele, o protegido protege, principalmente, o protetor de críticas eventuais, mas, depois, também, o contribuinte da incompetência daquele. Ou seja: além de esclarecido, é preventivo.


