O neoliberalismo já não está na moda
O sistema neoliberal está perdendo credibilidade e seus opositores devem, agora, assumir a tarefa de criar um novo movimento político e elaborar um programa para enfrentar a globalização. Essas são as metas, ainda não formalizadas, do vigoroso e vasto movimento de protesto contra a globalização e o dogma neoliberal, que em dezembro de 1999 fez fracassar a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), que, desde então, convocou outras grandes manifestações em diversas partes do mundo e em 31 de janeiro de 2002 voltará a se reunir em Porto Alegre, para discutir seu programa de ação.
Para avançar por esse caminho, os adversários da globalização deverão superar suas diferenças internas. Há um setor que rechaça de cara o capitalismo e não está disposto a discutir sobre como contra-atacar ou encaminhar a globalização, e só pretende destruí-la. O outro setor sustenta que a globalização é um fato irreversível e que o objetivo é controlá-la para colocá-la a serviço do homem. Esse foi o limite dos debates entre os expoentes do movimento contra a globalização no contexto do primeiro Foro Social Mundial, realizado em janeiro deste ano em Porto Alegre. Por isso, penso que Porto Alegre II deveria concentrar-se em quatro ou cinco temas, preparados previamente, para que seja possível chegar a posições concretas no curso das discussões.
Creio que é necessário definir a globalização financeira, a cultural, a econômica e a das comunicações, com critério amplo. Nesse sentido, opino que alguns aspectos desse processo são positivos. Por exemplo, em relação à globalização nas comunicações, pode-se afirmar que, sem a Internet, não teriam ocorrido nem os protestos de Seattle nem o primeiro Foro de Porto Alegre. Para ser eficaz, a oposição à globalização deve plasmar-se em um movimento político que não deve ser do tipo tradicional, isto é, identificado com uma determinada posição ideológica, porque, nesse caso, seria excludente com relação aos que não a compartilham. E é de notar que, atualmente, são poucos os que se reconhecem em uma ideologia.
Esse movimento tem de ser capaz de abarcar numa plataforma político-programática comum as diferentes posições de todas as forças que se expressaram no caminho percorrido de Seattle a Porto Alegre. A sociedade civil é a expressão dos cidadãos que querem participar de uma agenda social e serem levados em conta, sem fazer parte das instituições políticas. Portanto, o novo movimento deve abrir-se à sociedade civil, sem a qual não é possível elaborar uma agenda concreta e um verdadeiro programa de ação.
Quanto ao conteúdo, afirmo que deve consistir de valores comuns, em particular os da solidariedade e da justiça social. Os que concordam com estes valores poderão trabalhar juntos. Mas, se em lugar de escolher esse caminho, optarmos por discutir o modelo de sociedade que deveria inspirar o movimento, parece-me que iremos nos dividir. Sem uma agenda e um movimento que a impulsione, continuaremos quebrando vidros, como em Seattle, e terminaremos sendo um problema policial.
Precisamente, o sonho das pessoas de poder é que seja a polícia a solucionar o problema. Hoje em dia, estão dadas as condições para a criação desse movimento alternativo, já que depois de dez anos de poder quase absoluto, o neoliberalismo dá mostras de esgotamento. Em apenas um década, passou de dono de uma força extraordinária, que permitia aos que o sustentam lançar as propostas mais incríveis sem que ninguém as contestasse, até a presente situação, que mais parece defensiva do que ofensiva.
A verdade é que o ideário neoliberal e suas expressões mais notórias, como o chamado Consenso de Washington, receberam muitos questionamentos e perderam legitimidade. A razão está em que suas receitas, aplicadas cegamente em muitos países, não funcionaram. Todos os programas neoliberais fracassaram: não criaram postos de trabalho, não reduziram a distância Norte-Sul e aumentaram a pobreza. Todas as estatísticas econômicas e sociais das Nações Unidas mostram piora na medida em que são aplicados os programas neoliberais e avança a globalização.
Benjamin Mkapa, presidente da Tanzânia, apresentou-se ao Foro Econômico de Davos e disse aos maiores participantes dos negócios e do pensamento neoliberal: Senhores, em meu país temos colocado em prática todas as receitas prescritas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial. Privatizamos as empresas estatais, com o resultado de que o pouco que tínhamos agora é propriedade de empresas estrangeiras. Eliminamos as barreiras alfandegárias para estimular a livre competição e todas as empresas nacionais quebraram. Abrimos as portas aos capitais estrangeiros e ainda estamos esperando que cheguem os famosos investimentos estrangeiros. E desmontamos todo o sistema de saúde e de proteção social em favor de um modelo que não está funcionado. Digam-me o que tenho de fazer agora. Todos ficaram calados.
É um fato que a cada dia menos gente sustenta que o mercado é a solução de todos os problemas. Até há poucos anos, esse era um dogma intocável. É claro que o neoliberalismo continua sendo o modelo dominante, mas já não tem a força e a credibilidade daqueles tempos. Temos, portanto, à vista, uma situação ótima para o surgimento do movimento alternativo ao neoliberalismo.
- ROBERTO SAVIO, de Roma, é fundador e presidente emérito da agência IPS, presidiu no Foro Social Mundial as sessões plenárias sobre O Futuro dos Estados-Nação e Os Meios de Comunicação (IPS)





