Ao ler o artigo da estudante Rita de Cássia Simões Martelini, na edição da Folha de terça-feira, sob o título ‘‘No país da cachaça’’, resolvi fazer me manifestar por três motivos: primeiro, parabenizar a autora pela sua condição de estudante, em abordar um assunto tão polêmico, como é a questão das cotas; segundo, na qualidade de presidente da Associação Afro Brasileira (AABRA), aproveitar a oportunidade para chamar a sociedade londrinense a uma discussão mais ampla sobre essa temática; e terceiro, esclarecer que esse texto não se trata de uma resposta, mas, sim, uma contribuição para trazer à cena alguns fatos que contrariam a abordagem feita pela estudante.
Desse modo, vale ressaltar que a publicação referencia pelo menos três assuntos distintos que, no fundo, até podem ser relacionados em termos cultural, social, político e econômico: o carnaval, enquanto manifestação artístico/ cultural; a cachaça, enquanto produto genuinamente brasileiro que não perde para o whisky da Escócia, o vinho da Itália, a champagne da França ou a vodka da Rússia; e por fim o esporte, que traz consigo o selo do corpo e mente sadios, enquanto forma alternativa para desviar a atenção dos jovens com relação às drogas, ao tabaco ou à violência.
No tocante a miséria, violência e outros problemas citados, também lamento o descaso e a falta de seriedade como são tratados por nossos governantes. Embora concorde com muitas colocações do texto, não quero entrar no mérito dessas questões. Meu olhar volta-se para a comparação às MPs e MRs (medidas racistas) e, mais especificamente, às últimas citadas no âmbito da educação.
A colocação da estudante aponta a questão das cotas como medida racista. Eu até concordo em se tratando de 20%, pois na minha interpretação a lei deveria contemplar 50%, uma vez que a maioria da população brasileira é negra. No entanto, discordo da sua conotação, tendo em vista que se trata de uma medida que tenta corrigir uma distorção que há muito existe no Brasil, seja no aspecto social, onde o branco é visto na sala e o negro na cozinha; seja no aspecto político, onde o negro serve para a campanha mas não para exercer o cargo; seja no aspecto econômico, onde mesmo o negro sendo o empresário, ainda que micro, é visto como o encarregado.
No aspecto educacional, é possível citar os livros com textos e gravuras situando o negro na condição de inferioridade, acarretando sérias consequências raciais que o branco nem sempre vê ou entende. Nos meios de comunicação, a exemplo das novelas da TV, é raro ver um negro ou negra numa condição de igualdade. Essas e outras situações começam a ser corrigidas, graças a medidas como as que estamos referenciando.
Concordo com o texto quando diz que nós vivemos num país multirracial. Contudo, as piores barreiras a enfrentar são as invisíveis. O texto diz: ‘‘Desde quando o negro é diferente dos outros?’’ E eu respondo: desde sempre. Desde que foi tirado de sua terra e trazido como escravo, nos porões dos navios, tratado de forma desumana. Na colonização do Brasil, o branco veio como colonizador e na falta da mão-de-obra escravizou e alijou de tudo o índio (raça vermelha); permitiu a imigração do asiático (raça amarela) e de outros não-portugueses (raça branca); e arrancou o negro de sua terra, trazendo-o acorrentado, contra sua vontade, escravizado, tirado à força de seu meio, onde muitos eram reis e proprietários.
Agora eu pergunto: qual povo veio para o Brasil dessa maneira? Quem foi tratado com chicotadas durante 400 anos nesta terra? Acredito que até hoje o negro permanece escravo, se considerado o tempo, por exemplo. São anos, séculos de disparidade entre as oportunidades de acesso aos seus direitos. Não se pode confundir, nesse país multirracial, essa situação com convivência, pois negros e brancos convivem com raras exceções, ‘‘desde que o negro se ponha em seu lugar’’. Pois bem, não somos diferentes, mas somos diferenciados e muito discriminados no contexto da sociedade civil.
Gostaria de convidar não só a estudante, mas todos os londrinenses, para um passeio pelas repartições públicas ou privadas, assentamentos, bairros periféricos e no mundo acadêmico. Numa rápida olhadela nas salas das universidades de Londrina e do Brasil, vai-se verificar: qual a proporção racial, especialmente entre bancos e negros, nos bancos universitários? Quais as condições de acesso à educação, no decorrer da vida, entre as diferentes raças?
GENIVALDO DIAS DE SOUZA é presidente da Associação Afro Brasileira (AABRA)

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