O nefelibata cassandro-opiniático - Walmor Macarini
O nefelibata cassandro-opiniático
Walmor MacariniO que quer dizer nefelibata? E cassandra opiniática? Vamos ao dicionário: Cassandra é uma personagem da mitologia greco-romana que predizia infortúnios. Opiniático é quem tem opinião aferrada, puxando pra teimoso. Nefelibata é quem vive nas nuvens.
Esta é a linguagem do presidente Fernando Henrique para rotular os que o criticam. Difícil de entender, porque o presidente já deixou de falar a língua do povo brasileiro... Nosso bipresidente nem sequer examina se há alguma veracidade nas críticas que lhe fazem, mas não deixa ninguém sem rótulo. Especializou-se em frases carregadas de arrogância, excentricidade, egoísmo e até ingenuidade. Certa vez qualificou os aposentados de vagabundos. Depois, exaltando as excelências do Plano Real, disse que as coisas iam tão bem que sua empregada doméstica já tinha ido duas vezes à Europa. Aí o povo ri e debocha.
Nefelibata foi a tirada mais recente. Se FHC, com esses rótulos, visa a atingir adversários políticos ou segmentos que não o aplaudem, acaba atingindo todo o povo, pois são pouquíssimos hoje o que estão satisfeitos com o desempenho presidencial. Com nefelibata, o presidente quer dizer que estamos nas nuvens, por não percebermos as excelências de seu governo...
Há aquela história da parada militar, todos marchando no passo certo, e lá no meio um soldado que marchava de pé trocado. A mãe do soldado, que assistia ao desfile, ao ver o filho apontou e exclamou que o batalhão inteiro estava marchando errado, só o seu menino estava certo... FHC está assim. Entre vagabundos (expressão dele), cassandras opiniáticas e nefelibatas, estamos todos em descompasso. Cento e cinquenta milhões de brasileiros (eis que apenas 12% o aprovam) estão marchando errado, só FHC marcha certo...
E entre marchas e contramarchas, nesta Marcha dos 100 Mil que hoje acampa em Brasília há certamente muitos oportunistas, mas um movimento destes não ocorre se não existe clima. A marcha dos caminhoneiros não ocorreu por acaso. O protesto dos agricultores endividados em verdade mais contra os juros extorsivos, embora se saiba dos que não aplicam adequadamente os empréstimos não eclodiria se não houvesse um ambiente propício. E a Nação (que o elegeu), não obstante avessa a manifestações turbulentas e a paralisações, de repente fica muda, em atitude de aprovação. Significando que o deselege.
O povo tem também sua parcela de culpa pois é do seio das massas que surgem os políticos mas não há dúvida de que o grande opiniático (no sentido de insensível e teimoso), o grande nefelibata (o que vive nas nuvens), é o presidente Fernando Henrique Cardoso. Porque virou as costas para o Brasil, seguiu a linha monetarista de seus burocratas de gabinete destacando-se a grande eminência parda da República que é o superministro da Fazenda e esqueceu-se da gente aqui de baixo, que é a que produz e segura a barra.
O presidente FHC não visita o Brasil, fechou olhos e ouvidos, e acredita-se que até seu coração, por isso não conhece a origem e a efervescência desses movimentos que irrompem aqui e acolá e que daqui a pouco poderão tornar ingovernável esta pátria amada.
Nos anos 60 já assistimos a um filme parecido. Deu no que deu. E no que deu, o então militante FHC não gostou. Ele que, à época, junto com os seus alguns hoje integrando seu governo mapeou um Brasil modelo, que simbolizava o anseio de todos os cidadãos. Guindado ao poder pela força desses ideais, o hoje presidente Fernando Henrique Cardoso revelou-se, a seu modo, também um ditador, pois despreza e ironiza o povo e ignora os clamores que chegam das ruas. Não soube dizer não, na ocasião oportuna, às propostas de barganhas das raposas que povoam o Congresso. Perdeu a autoridade. Agora, os oportunistas de plantão querem a cassação de seu mandato. FHC propiciou chegarmos a esta situação.
Está certo que, num país com tantos problemas, não seria possível resolver todos, em apenas cinco anos. Mas FHC não resolveu nenhum! Imobilizou-se. Também não tem um grande projeto. Sua bandeira é que ele dominou a inflação. Um sofisma, o falso com aparência de verdadeiro. Por que só não existe uma grande inflação para o consumidor orgânico. Porque o desconto de duplicatas, nos bancos, tem custos de 3%; o cheque especial está em 12%; o juro embutido no comércio gira em torno de 7%; a casa própria, quanto mais se paga maior é o saldo devedor; a correção da dívida rural, desde o início do Plano Real, foi de 3.840%, segundo números da Confederação Nacional da Agricultura; tudo o que o governo administra continuou subindo vertiginosamente e o poder aquisitivo de hoje não é o mesmo do início do Plano Real, porque houve uma queda da moeda em quase 80%, sem o correspondente acréscimo salarial.
Então, que fim de inflação é este?! Em verdade, o que temos no Brasil são diferentes inflações, muito mais altas hoje do que a inflação de pico de 84% ao mês do governo Sarney. Porque naquele tempo, embora o salário mínimo inalterado, o patrimônio físico crescia paralelamente, o que transformava a perda patrimonial em praticamente zero.
Voltando mais atrás, nos tempos de JK a inflação também era alta mas o País crescia e o povo era feliz. Porque JK visitava o Brasil, gostava de ser brasileiro, ouvia e acatava as críticas e, sobretudo, tinha um ardor cívico pelo desenvolvimento. Os negócios prosperavam. Vivíamos a era dos 50 anos em cinco. Agora, no início deste governo, muitos chegaram a vislumbrar em FHC um JK. Foi só sonho de noite de verão.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





