Se nem todos os movimentos podem ser qualificados de sociais - porque há os casos de invasão de propriedades alheias, destacadamente as rurais, mesmo que produtivas - os manifestos em favor dos excluídos são formas de eliminar as desigualdades e assim corrigir injustiças. Se os governos, como agentes primordiais, demoram para implantar as grandes reformas de leis e sistemas, o povo precisa arregimentar-se e pressioná-los. Os detentores do poder, infelizmente, compreendem mais rapidamente essa linguagem.
Dizer-se que os governantes não têm medo do povo não é uma verdade. O que eles não temem é um povo inerte e passivo que a tudo aceita, que não vai além dos resmungos e não se organiza em lutas sabiamente conduzidas. Os políticos e administradores públicos não se intimidam porque nunca acontecem vigorosas manifestações, destas que, quando irrompem, ninguém consegue conter. Em Curitiba, todos os anos no Dia da Pátria dezenas de entidades realizam o Grito dos Excluídos, que é uma forma de protesto contra os descompassos do atendimento público e o descaso dos governos.
Pensava-se que a administração petista eliminaria tais protestos, por via de uma revolução social para correção das desigualdades (nos casos em que isso é possível) mas o populismo no poder optou por dar prioridade a sistemas de filantropia, com ajuda financeira a famílias carentes, mas isto não as emancipará e nunca as tirará da pobreza. Não se vive no Brasil uma democracia plena, porque não há oportunidade de vida decente para todos. Democracia não é apenas votar e ser votado e nem ter a liberdade da livre manifestação, mas também o acesso de todos aos bens da riqueza nacional. Se não se espera a opulência que alguns desfrutam como referência de igualdade, ao menos que sejam as coisas fundamentais, como a oportunidade de trabalho e renda, moradia de qualidade, alimentação, acesso à escola, bons atendimentos de saúde e segurança.
Será esperança vã imaginar que, por decisão própria, os governantes se mobilizem. Com raras exceções, eles cuidam antes de tudo de perpetuar-se nos cargos e obter as vantagens pertinentes. Mas se pressionados com vigor e persistência, a ponto de isto balançar sua permancência no poder, eles se aprumam. Num país de homens públicos de baixa responsabilidade, pouco se conseguirá sem mobilização popular.

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