O nazismo de ontem e de hoje
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de maio de 2015
Celso Felizardo 
Londrina Setenta anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o escritor paranaense Miguel Sanches Neto recria em seu novo romance "A Segunda Pátria" um Brasil alinhado com os ideais nazistas. No cenário descrito pelo autor, o governo de Getúlio Vargas se alia com o Eixo, e os estados do Sul, com grande presença de descendentes de alemães, podem pôr em prática os princípios do nazismo, como o racismo, o antissemitismo e a eugenia.
Em uma primeira leitura, a assustadora ficção que aproxima do Brasil os horrores cometidos nos campos de concentrações europeus pode parecer inverossímil, mas no desenrolar da trama é possível encontrar muitas relações com os dias atuais. Em entrevista à FOLHA, Sanches Neto comenta sobre as semelhanças da ideologia nazista com discursos discriminatórios de movimentos separatistas do Sul e com a política de negação do outro, comum às outras regiões do País. De acordo com o autor, muitas vezes ideias que parecem ingênuas refletem nos piores comportamentos humanos.
Com o cuidado para não demonizar a colonização alemã, o escritor aceitou o convite da editora Intrínseca que sugeriu o tema do livro. Sanches Neto levou três anos no projeto. Segundo ele, o livro mexe em um período que muitos queriam esquecer, mas sem uma preocupação histórica ou jornalística, dados como nomes reais das famílias pró-nazismo encontradas em documentos durante as pesquisas não foram aproveitados. A maior preocupação da obra, segundo ele, foi a de jogar luz sobre fatos que foram apagados, revendo possibilidades que não se efetivaram. Sanches Neto também comenta como o trabalho, identidade paranaense, influenciou sua literatura.
"A Segunda Pátria" tem um contexto muito mais espinhoso que "Um Amor Anarquista" ou "A Máquina de Madeira". Quais foram as dificuldades e cuidados ao escrever a obra?
De fato, ao tratar do nazismo no Brasil, acabei mexendo com um período que os descendentes de alemães talvez quisessem esquecer. Mas é justamente esta a função de uma literatura com raízes históricas: tentar jogar luz sobre fatos que foram apagados, revendo possibilidades que não se efetivaram. Então, eu não podia recuar diante desse entusiasmo brasileiro por Hitler. Além do necessário cuidado para não demonizar a colonização alemã, eu estava limitado pela falta de estudos e de documentos sobre o período. Nos dias de hoje, há uma pequena produção de teses de doutorado sobre o nazismo tupiniquim. E, no passado, os relatórios da polícia foram as principais fontes para entender este episódio. Agora, que fique claro, o ficcionista entende o passado a partir de uma intensificação dos episódios. É nesta linha que meu livro deve ser lido.
Quanto tempo de pesquisa?
Eu tinha um contrato apertado com a editora. Deveria entregar o romance em 18 meses. Tive que me dedicar com muita exclusividade ao projeto. A primeira consequência desta dedicação foi que me obriguei a interromper minha atividade como colunista de jornal. Diminuí minha participação em eventos, me tranquei em casa para ler, estudar e planejar a obra, num primeiro momento mais ou menos um ano. Depois para escrever mais seis meses. A escrita deste livro teve um papel importante na minha vida, pois me obrigou a priorizar a ficção, a reorganizar minhas atividades. Saí da empreitada mais escritor do que eu era antes. Acabei entregando o livro no prazo. E depois ficamos trabalhando na revisão e edição do livro por mais 18 meses. Ao todo, ele me consumiu três anos.
Setenta anos depois da derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial, ainda é possível perceber resquícios da ideologia velada em alguns movimentos. É possível traçar um paralelo entre a ideologia e movimentos separatistas do Sul?
Sim, há uma matriz do pensamento de exclusão, que é uma concepção eugênica do brasileiro, como se houvesse no mínimo dois brasis, o que gera riquezas (porque é composto por pessoas melhores) e o que explora as benesses do estado (o Brasil composto por uma espécie de sub-raça preguiçosa). Esta visão de dois brasis está na defesa separatista do sul, mas está também nesta política de negação do outro, comum às demais regiões do país. O meu romance leva à última consequência este raciocínio, vinculando-o de maneira inequívoca à ideologia nazista. Muitas vezes, defendemos ideias que parecem ingênuas, sem consequências, mas elas trazem à baila os piores comportamentos humanos. A segunda pátria é um livro que tenta desarmar esta negação do outro, que chegou ao seu ápice no nazismo, mas que reaparece frequentemente em discursos de segregação racial, e que foi a base da ditadura militar. Há um fio condutor ideológico entre o nazismo e a ditadura implantada em 1964. Eurico Gaspar Dutra, ministro de Vargas e pró-nazista declarado (junto com Gois Monteiro, também ministro de Getúlio, e Filinto Müller, chefe da polícia do Distrito Federal), acabou presidente do Brasil sob a ditadura. Ou seja, o impulso de direita que se manifestou na Segunda Guerra Mundial, entre nós, é o mesmo que conduziu o Brasil ao golpe de 1964.
A ideia do livro partiu da editora. No momento que recebeu o convite, quais fatores levou em consideração para aceitar o desafio. Ser um escritor do Sul do País te deu maior chancela ou o peso ficcional é maior?
Quando a editora Intrínseca começou o seu catálogo de ficção nacional, fez como primeira contratação este projeto de romance. A proposta era bem aberta, então eu pude formatar o livro à minha maneira. Não há diferenças substanciais entre ele e meus outros romances. Para que eu aceitasse o desafio, avaliei se a minha experiência real e as minhas leituras rendiam material para a construção de uma narrativa que se sustentasse literariamente. Eu só poderia ambientar este romance no sul do Brasil, onde a presença do elemento estrangeiro é muito forte. E todos crescemos aqui ouvindo histórias dos nazistas, dos integralistas e dos fascistas, histórias que estão em nosso imaginário. Acho que isso foi fundamental para a densidade do livro.
Apesar da farta literatura sobre o nazismo, a influência no Brasil parece ser pouca explorada. Como é tocar nesta ferida?
É verdade, a ficção que trata disso é pequena, quase inexistente. Enquanto eu pesquisava em arquivos em uma das cidades de colonização alemã, uma historiadora me chamou para almoçar com o intuito de dizer que eu estava mexendo em um tema tabu. O medo dela era que eu fosse querer identificar os nomes reais das famílias que se encantaram com Hitler. Mas este levantamento documental mais realista (seara do historiador e do jornalista) nunca me moveu. Não me interessa saber quem fez o que, mas como o nazismo foi um caminho histórico que felizmente acabou interrompido. O ficcionista explora uma verdade maior, que não fica presa ao factual.
Como o fato de ser um escritor paranaense reflete nas suas obras? Comente um pouco sua identificação com o Estado.
O elemento identitário paranaense mais evidente em minha literatura é a ética do trabalho. Criado em meio a trabalhadores que fizeram do Paraná um sonho de mudança de vida, nesta grande mistura de raças que é o norte do Estado, convivendo com várias etnias e também com paulistas, mineiros, gaúchos, nordestinos, todos imbuídos de um desejo de construir um país no meio do sertão, acho que herdei uma ideia de que a literatura é trabalho, é construção social, é a minha lavoura cultivada de sol a sol e numa linguagem acessível, em estado de oralidade. Por outro lado, tematicamente, há uma presença muito forte de personagens desenraizados, que chegam aos locais para construir a sua vida e logo partem, em busca de outras oportunidades. O paranaense é este ser em movimento, sem uma relação mais fixa com o seu chão de origem. Somos personagens móveis. O tema da mudança, da viagem e do retorno estão muito presentes em meus livros.


