O náufrago não tem escolha
O retrato que a Fundação Getúlio Vargas acaba de tirar do Brasil é a mais vergonhosa demonstração do estado social de um país que tem 50 milhões de pessoas que não conseguem ter uma alimentação suficiente e que vejam só entocado no seu ridículo 69º lugar, está muito atrás da combalida Argentina (34º), Chile (39º) e Uruguai (37º) no Índice de Desenvolvimento Humano, aferido pela Organização das Nações Unidas.
É esse o gigante que nós temos. Um gigante de pés de barro. As instituições, repetem os ufanistas, estão funcionando perfeitamente sob a mais desfraldada bandeira democrática. É isso. Nessa democracia, a sociedade dá respostas positivas à crise de energia, colaborando com o plano de racionamento, as calamidades continuam ocorrendo dentro das previsões, como a seca do Nordeste, e as fugas previsíveis dos nossos Carandirus exibem não apenas a formidável anatomia dos queijos suíços em que se transformaram nossas prisões mas as mortes anunciadas nos bairros miseráveis, os sequestros, a violência expandida, fruto da bandidagem que faz, nas ruas, a festa da improvisação e da incúria de nossas autoridades.
Onde estão os nossos sonhos, para onde estão indo nossas ilusões? Para o espaço do nada, que é o território das grandes doenças comportamentais: a apatia, que traz a indiferença e a indolência; a atrofia, que provoca o definhamento do corpo social, prejudicando sua capacidade de agir e reagir e a abulia, que se faz notar pela diminuição e perda de vontade. Não é difícil enxergar qualquer um desses sintomas. Estão presentes na onda de indignação social, nas onomatopéias e imprecações contra os políticos, na rejeição aos governos, e, pasmem, na escolha, por absoluta falta de alternativa, dos nomes que hoje se apresentam como pré-candidatos ao cargo de mandatário-mor da Nação.
As ilusões, lembra De Nerval, escritor francês, caem uma após a outra como as cascas de uma fruta, e a fruta é a experiência. Seu sabor é amargo, no entanto, ela possui algo acre que a fortifica. O gosto acre das experiências é o fortificante que ainda conduz o povo a pôr fé no amanhã, a apostar na intenção de novos atores, a se decidir votar em determinado candidato. Na falta de perfis que entusiasmem a sociedade, a opção ocorre pelo processo de exclusão. Do pior para o menos ruim. Se Lula continua a ter os seus tradicionais 30% de intenção de voto, é porque transforma-se, cada vez mais, no funil das ilusões perdidas. Na ausência de uma grande certeza, diante do metalúrgico, agora cosmetizado para aumentar sua palatabilidade, o eleitor aceita as últimas palavras de Rabelais no leito de morte: vou em busca de um grande talvez. Lula é a reverberação do furor coletivo contra a planificação tecnocrática da marca Malan.
Que significa Itamar Franco, o extravagante governador mineiro, se não a extensão da indignação social, a revolta, que Martin Luther King conceitua como a linguagem dos que não foram ouvidos? Itamar só existe como pré-candidato num quadro de extremas carências, que dão realce a um perfil que ele apresenta como o de um ex-presidente traído e açoitado. E para alguém, entronizado como vítima, nada mais adequado para o eleitor do que um voto de vingança, uma espécie de justiça selvagem. Ou seja, o pitoresco governador é a mais consagrada metáfora da imprecação social.
O menu tem sobremesas leves. Basta olhar para Garotinho, fruta da estação, uma espécie de filho do acaso com a mãe do oportunismo. Pois o momento favorece os circuitos de fé. Na crise, o apelo ao divino ganha força e vazão. Garotinho, como sugere seu nome, é uma mistura de inocência infantil com esperteza messiânica, posições que se banham nas águas assépticas de um discurso que quer se fazer de novo. Mas o populismo, mesmo travestido de neo, é mais velho que promessa. Garotinho, o messiânico, canaliza a força mística.
Mas há o meio termo, nem água com açúcar nem pimenta malagueta. Ciro tirou o paletó do enfant terrible para vestir a camisa esporte, que é a versão mais atualizada de uma social-democracia voltada para mudanças estruturais mais fortes. E onde cabe o José Serra, com seus remédios genéricos e luta contra os grandes laboratórios? Isso não seria o grande motivo para alavancar uma estratégia de engabelamento social? Sem dúvida, se o governo estivesse no coração do povo. Serra é a montanha mais difícil de subir, pois é o espelho sem complacência de nossa tragédia cotidiana. Seu preparo intelectual e seu esforço para oferecer a cama social que Fernando Henrique não soube construir não resistirão à idéia de que será tragado pelas circunstâncias. O ministro da Saúde é, de certa forma, extensão da fatalidade.
Os atuais pré-candidatos infelizmente não ocuparam o espaço central das demandas e vontades nacionais. Circulam nas margens. Se são parcialmente preferidos, é porque a taxa de infelicidade geral, nesse instante, induz a sociedade a buscar qualquer tábua de salvação. No oceano bravio, navio afundando, o náufrago não tem escolha.
- GAUDÊNCIAO TORQUATO é jornalista, professor em São Paulo e consultor político
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