Arlete Salvador
Lá vamos nós de novo para as intermináveis discussões sobre o combate à violência. Propostas para reunir gente sobre o tema proliferaram nas últimas semanas, desde que a CPI do Narcotráfico ganhou as primeiras páginas dos jornais e um maluco entrou atirando num cinema do Shopping Center Morumbi, em São Paulo. Agora mesmo, por exemplo, o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, anunciou que quer montar uma comissão para tratar do assunto e apontar possíveis soluções. Como se as causas e as soluções já não tivessem sido exaustivamente examinadas, mais de uma vez, num passado não muito distante.
O assunto segurança pública sofre de um tipo de efeito ioiô: vai e volta. De repente, não se sabe bem como ou por que, está no centro das atenções. A violência aumentou mesmo? Ninguém sabe, mas nos últimos dias parece que se instalou um estado de terror no Brasil. As chamadas ‘‘pessoas de bem’’ temem que um batalhão de ladrões tomem as ruas, cinemas e restaurantes de assalto. Parece haver um assassino e um estuprador em cada esquina. Talvez haja; talvez, não. Mas parece há.
Aconteceu o mesmo com o tema pobreza. Sempre existiu neste país desigual, mas só recentemente, e de maneira súbita, virou assunto de seminários e simpósios e de comissão especial. Projetos e alternativas para acabar com a pobreza foram debatidas até a exaustão. Cálculos deram o número exato de pobres brasileiros e quanto dinheiro seria necessário para dar-lhes uma vida, digamos assim, mais digna.
Como veio, a onda de debates sobre combate à pobreza passou. Justamente para dar lugar à discussão sobre o combate à violência. Os pobres continuam pobres e são tão numerosos quanto antes – talvez, mais numerosos à medida que o tempo passa e a inflação aumenta. Quais eram mesmo as soluções mágicas para acabar com a pobreza?
Suspeito que o mesmo acontecerá com o tema da segurança. Afinal, não é preciso ser nenhum gênio ou estudioso do assunto para sugerir propostas de redução da violência e de manutenção da segurança pública. Aliás, propostas existem aos milhares. Há instituições de ensino especializadas no tema. O Núcleo de Estudos da Violência, ligado à Universidade de São Paulo, é um deles. Faz pesquisas há anos.
O que falta, na verdade, é ação. Falta colocar algum desses projetos em prática, em larga escala. Talvez não seja possível acabar com todos os tipos de violência porque essa é uma tarefa para várias gerações, mas trará resultados no futuro. Blablablá não põe bandido na cadeia nem guarda nas ruas para assegurar ao cidadão uma volta tranquila para casa. Mas dá ibope, reportagens nos jornais e na televisão.
Assim sendo, é fácil prever que se vai gastar muita saliva e tinta (nos jornais) sobre um assunto que morrerá em poucas semanas e será substituído por outro. Como o final do ano se aproxima, o candidato mais cotado para assumir o posto de assunto da hora é a entrada do ano 2000. Sabe como é, o espírito natalino vai se instalando aos poucos. Logo, quem se lembrará das chacinas da periferia?

mockup