O Natal e os valores do homem
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de dezembro de 1996
Olympio de Sá Sotto Maior Neto 
Pelas criativas mãos de diferentes artistas que, na expressão dos presépios, depositam a sensibilidade e a alma dos povos, repete-se no mundo todo, nesta época, a milenar cena do nascimento de Jesus Cristo.
Casas, ruas e cidades se enfeitam, a Igreja festeja, as pessoas, alegres, trocam presentes e comemoram. Da mais humilde à mais sofisticada casa, celebra-se o evento de forma particularmente especial, convergindo atitudes e sentimentos que as transformam naqueles verdadeiros lares que, em boa parte do ano, deixam de ser. A família é mais família e os homens mais solidários, reinando a tolerância, a compreensão, a paz e, de modo geral, a felicidade.
A ocasião, porém, é ideal para refletir acerca dos destinos do homem nesta sua muitas vezes dramática aventura na terra.
Não é possível que, após dois mil anos de um constante caminhar, ainda nasçam crianças nos estábulos sem teto, nos porões sem luz, nos bancos das praças, nas prisões imundas e nos jardins sem flores, pela absoluta falta de condições materiais e de perspectivas de vida digna.
Não se pode continuar admitindo conhecidas formas de injustiça e discriminar, desde o seu primeiro instante, aquele que vem ao mundo para compor as camadas dos marginalizados socialmente.
A criança, seja no continente africano ou americano, ou em outra parte do mundo, deve ser reconhecida como sujeito de direitos fundamentais que se colocam acima de sua condição econômica, raça, sexo, cor, porquanto é ela a expressão mais legítima de cidadania universal.
A liberdade de nascer deve abranger a de optar pela vida sem interrupções e sobressaltos, sem fugas, sem perseguições, sem a sina de perambular no alheio para se recostar numa manjedoura qualquer.
Que o poder dos novos Reis a presentear o recém-nascido não seja somente etéreo, mas terreno, presente em sua vida de modo a lhe oferecer reais oportunidades de ascensão social, a lhe assegurar um futuro digno, a lhe garantir espaço sem abismais desigualdades.
Que ele possa pertencer à sua família, habitar a sua terra, comer o fruto de seu trabalho, proclamar as suas crenças, louvar ao seu Deus, enfim sonhar com um mundo melhor e mais justo.
Não é possível que ainda prevaleça como naquele tempo a política do jogo e da exploração que escraviza, estigmatiza e aprisiona o homem desde o seu nascimento, atrofiando sua dimensão, atropelando sua trajetória e transformando as brumas de sua primavera da vida em trevas, envolvendo em seus anéis contingentes a sua juventude e dirigindo a nau de seus destinos rumo ao sofrimento e à cruz.
Seria um erro pensar que a inteligência humana não evolui, que se pode indefinidamente anular a reação das massas sempre ultrajadas em seus mais elementares direitos. A colisão é inevitável. O erro não pode viver longo tempo com a verdade.
O justo, que o poder dos homens prostrou, revive no remanso da paz aviventada neste tempo. O perseguido que Herodes não encontrou, apesar de estigmatizado, guarda sempre a hora da reparação e o momento final da vitória.
Que neste Natal seja mais uma ocasião de reafirmar os verdadeiros valores do homem - e que aqui, aliás, devem ser defendidos pelo Ministério Público, como o foram pelo próprio ministério de Jesus Cristo na terra.
Que ressurja o respeito à natureza humana, aos brados da justiça, aos clamores da dignidade para que se possa atravessar de vez eclipses de dias guardados na distante galeria da lembrança e que vão sendo esquecidos pela chama dos mais belos e elevados ideais de vida.
E que se resgate à criança de hoje sua majestade moral, penhor inviolável de um verdadeiro tempo de Natal, assentado no porvir da nova civilização que se espera.
- OLYMPIO DE SÁ SOTTO MAIOR NETO é procurador geral de Justiça do Paraná.


