O Natal da peste...
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
João dos Santos Gomes Filho 
Dois mil e vinte anos do maior evento da cristandade, o fantasma dos natais passados volta a nos assombrar – a novidade é que, neste ano, ele vem de máscara...
Houve um tempo em que o fantasma amava o natal e essa lembrança agora o move, na medida em que a comercialização quase pagã da data o afastou dos eventos então desencadeados, hora redivivos na tristeza dos corpos que a pandemia contabiliza...
Sim, vivemos este ano o natal da peste, cuja regência remonta a praga viral pandêmica (coronavírus) e seu desate parece longe de estar encaminhado...
Passou que no natal passado alinhamos a peste como um problema chinês – quiçá europeu, mas não nosso e, assim, o natal passado seguiu sem maiores sobressaltos (comercial e sem observações ao evento em si), em que pese as notícias que vinham do oriente dessem conta da urgência e da gravidade da demanda. Por aqui não nos sensibilizamos com problema alheio e isso vem de muito tempo: mais de quinhentos anos...
Este ano será diferente. Mais de cento e oitenta mil mortes de diferença levarão muitas famílias brasileiras a se reunirem em torno da fogueira das próprias vaidades, expondo a unidade familiar à teimosia do convívio que não desapega – ao menos durante o natal...
Tias lamentarão sobrinhos idos, primos passados, netos entubados e, de gole em gole, expulsarão o fantasma da liberdade em plena festa da cristandade, recebendo de braços abertos o seu primo fantasma dos natais passados, que natal e saudosismo se abraçam como sol e américa latina...
Sem hipocrisia: gostava mais do fantasma da liberdade que ele alinhava o sonho americano de uma unidade latina ao desidério de nossa expiação, plantando a ilusão no pó da estrada enquanto Arturo Bandini beijava Vera Rivken...
O fantasma dos natais passados traz em si uma nota de tragédia que não nos anima em nada – antes o contrário; afasta da fantasia o ‘sonho feliz de cidade’, proliferando a desesperança negacionista que invadiu o jardim Europa, passou por Higienópolis, abraçou Moema e aportou na Palhano...
O trágico da distopia científica é que ela alberga a curva ascendente no número de mortes, potencializando uma tragédia mundial cujo último precedente remonta há cem anos e remete a gripe espanhola...
O homem que conquistou a lua é o mesmo homem que não se acautela em situação extrema, regida pela pandemia para a qual ainda não há imunização concreta – a vacina, quando vier, não imunizará automaticamente o vacinado e estar vacinado não autoriza ‘despensar‘ o próximo...
Muitas festas clandestinas – quase sempre guardadas pelos muros altos dos condomínios horizontais de Londrina – não levaram em conta funcionários e parentes idosos que teriam o convívio exposto ao pós festa. E essa foi apenas uma via de proliferação feita em elegia pelos que não se põe no lugar do outro.
Foi meio assim, descuidados, que esparramamos o vírus tão eficientemente. Não nos importamos conosco e nem com quem nos presta serviço – e o fantasma dos natais passados achou descolado esse ‘nonsense’...
Como será, entretanto, nosso natal? Cristão? Pagão? Órfão de significado?
As festas seguirão na contramão do momento pelo qual passamos? A necessidade de reunir e ‘sarrar’ seguirá ultrapassando as baias da razão ou, contrário senso, a data cara à cristandade pontuará um instante de reflexão?
Somos estranhos; nossa latinidade (que seria nossa maior herança) tem se desenhado de pouca valência na atual quadra e nossos arroubos é quem vem nos caracterizando – pensamos bem pouco e sentimos em demasia e de forma egoística...
Até as estrelas que apagamos quando subimos montanhas não têm mais seu brilho de volta quando a noite cai sobre a terra. A politização imbecilizante da negação à ciência proliferou entre nós e implementou uma secularização própria, matriculada no atraso desenvolvimentista e na ruptura cidadã de latino américa. Fê-lo de uma forma tão veemente que a dor alheia não é vista enquanto dor e sim como carma...
E o simbolismo do ‘cara’ parido em uma manjedoura, em um ambiente para lá de modesto e saudado nos quatro cantos da terra em época que não conjugava rede social e mídia corrompida pelos interesses do capital? Só uma desculpa para gente se reunir e trocar presentes...
Erramos sim, mas sempre haverá um fantasma em nosso subconsciente a lembrar melhores caminhos – cumpre a nós outros escolhermos qual fantasma triunfará: o da liberdade ou o dos natais passados?
Feliz natal...
Tristes trópicos. Saudade Pai!
João dos Santos Gomes Filho, advogado


