Os altos índices de desemprego e de pobreza neste Natal de 1997, no Brasil, aumentaram significativamente o número de excluídos dessa festa anual de consumismo, realizada quando historiadores, arqueólogos, teólogos, linguistas, estudiosos dos Evangelhos e analistas de um documento descoberto há cinquenta anos nas grutas de Qumran - os manuscritos do Mar Morto - chegam a interessantes conclusões sobre o combate à pobreza e à exclusão social, no começo do cristianismo.
Tais pesquisadores, todos católicos, têm conceito cultural inquestionável, como Robert Funk, Teólogo de Harvard; John Dominic Crossan, professor de estudos bíblicos na Universidade DePaul de Chicago; Marcus Borg, Luke Timothy Johnson e Charles-Harold Dodd, considerado um dos maiores especialistas modernos em Evangelhos. Não cabe aqui entrar no mérito desses estudos, que desfazem alguns mitos, mas revelam novas facetas de Jesus, capazes de tornar o grande aniversariante desse Natal ainda mais admirado pelos católicos, em particular, e pelos cristãos, em geral.
Segundo Borg, Jesus foi um ‘‘subversivo sábio e um profeta social’’, preocupado com as profundas injustiças de seu tempo. Ele pregou a fraternidade entre os seres humanos, fossem eles quem fossem, e a caridade, mas quis resolver o problema da pobreza de seus contemporâneos no mundo terreno e não na vida que poderia existir depois da morte. Na opinião de Crossan, Jesus foi um revoltado e revolucionário, que se bateu contra a opressão econômica e social de sua época.
Ao falar dos estudos e trabalhos desses pesquisadores, Dominique Jamet escreveu no semanário francês ‘‘L‘Evénément du Jeudi’’, no ano passado, que ‘‘a mensagem de Jesus seria tão escandalosa, hoje, quanto há dois mil anos. Ressuscitasse ele no Brasil e seria assassinado pelos asseclas dos grandes proprietários do país...’ Mas, com certeza, não lhe faltariam motivos para indignar-se com a situação dos brasileiros excluidos, não muito melhor do que a dos palestinos do começo do cristianismo.
Além da inexistência de uma política de emprego e de distribuição de rendas, para reduzir a distância entre os muito pobres e os muito ricos, no Brasil, nesse limiar do terceiro milênio Jesus veria que o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso - embora engajado em reeleger-se a um novo mandato - ajuda, por incrível que pareça, a aumentar o desemprego. Os recursos do Fundo de Assistência ao Trabalhador (FAT) são controlados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento e Social, mas só pequena parcela deles é usada em benefício dos sem-trabalho. O grosso de tais recursos financia a privatização de empresas estatais. Estas, uma vez privatizadas, praticam a política de redução do número de trabalhadores, em nome da competitividade e do lucro de seus novos proprietários.
Por essa e tantas injustiças mais, o agitador que percorreu os caminhos da Palestina, quando outra Roma dominava o mundo, não teria - segundo Jamet - do que se rejubilar. Ele precisaria, sim, desdobrar-se em suas dimensões, para confortar a massa dos oprimidos de hoje, nesse dia de seu aniversário, justamente no maior país católico do mundo.

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