O Natal da esperança
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segunda-feira, 09 de dezembro de 2002
René Ruschel 
No Natal, por si só, as pessoas ficam mais felizes. Ou melhor, felizes, sensíveis e benevolentes. A começar que, salvo alguns poucos privilegiados, os mortais comuns que têm emprego formal recebem nesta época o único aditivo salarial o décimo terceiro. Seja em Ipanema ou Copacabana; Jaçanã ou Casa-Verde; Paris ou Quixadá; a alegria pelo Natal é sempre contagiante. O curioso é que em todos os anos há algo de diferente no ar. Principalmente em tempos eleitorais.
Quem não se lembra do Natal de 1989, quando a trupe collorida capitaneada pelo cangaceiro-mor do agreste um certo Fernando invadiu o litoral do Rio de Janeiro para mostrar à Senzala os nobres costumes da Casa Grande. Veleiros, iates, escumas; lagostas, uísque, sol e mar, obviamente. Só faltava o augusto fidalgo das Alagoas sacar a pistola e com a única bala na agulha derrotar o dragão da maldade: a crise verde-amarela. O final da história a gente sabe no que deu.
Depois a coisa ficou meio sem graça. Em 94 e 98, quase nada mudou. Os ocupantes do Palácio incluindo o príncipe e seu séquito são filhos bem nascidos da sociedade paulistana, oriundos dos barões do café, da tradição quatrocentona forjada nas cátedras, na Avenida Paulista ou nos salões fechados à aristocracia. Por glamour ou requinte, a elite sempre se mostrou avessa a badalações populares. Como estava próxima ao poder, convinha se manter isolada do povão em nome da tradição, dos brasões e das boas maneiras. Uma parcela que chegou depois foi mais benevolente com a plebe. São os chamados novos ricos.
Agora, no Natal de 2002, o fato novo é que outro nordestino se prepara para assumir o Planalto. Ao contrário do último ou ao revés de todos os presidentes este foi operário com carteira assinada, sem curso superior, não fala nenhum idioma estrangeiro e nem descende de qualquer linhagem nobre. Tem o mais brasileiro de todos os sobrenomes: Silva. Ninguém, nem Papai Noel, pode afirmar o que acontecerá a partir de 1 de janeiro, a não ser que o Brasil será diferente. Lula é um destes fenômenos da história que se repete de décadas em décadas ou séculos, quem sabe. Alguns o transformaram numa espécie de líder messiânico, um predestinado a ser o salvador da pátria. Com todo o respeito a estes fanáticos, mas isto, além de perigoso, é irreal.
Queiram ou não os donatários de Pindorama, Lula devolveu esperança ao País. Os céticos chamam isto de populismo; os adversários de farsa e os aliados de redenção. Talvez a questão semântica não seja essencial neste momento. Aliás, de neologismos a Nação está farta, por isso optou pelo pragmatismo tupiniquim. O povão só quer mesmo matar a fome, encher a pança, ter direitos elementares como trabalho, segurança. saúde, educação, além de almejar um amanhã melhor. E isso é que se chama esperança.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


