A realização dos fóruns Social Mundial (Porto Alegre) e Econômico Mundial (Nova York) dá a clara dimensão das duas correntes que separam o mundo, independente do nome que queiram dar. Por trás de toda essa mobilização existem ideologias, interesses e muito poder, tudo baseado na questão econômica. Aliás, a lógica do mundo capitalista é o lucro, sendo o poder econômico o que delimita as fronteiras entre ricos e pobres, entre os que têm acesso e os excluídos.
Como estratégia de esvaziamento do Estado, potencializando a iniciativa privada - atrelada aos interesses de determinados grupos em íntima relação com governantes corruptos, o projeto neoliberal se mostra nefasto para a maioria da população em benefício de poucos. O caso da gigante americana Enron pode ser é o exemplo deste sistema e modelo.
O aumento da concentração de renda e do poder político-econômico esmaga a maioria, desrespeita as diferenças e cria mitos. Achar que o mundo globalizado dá as mesmas oportunidades para todos é inocência, ou melhor, estratégia para manter excluídos os que pensam ter alguma chance. Mesmo que muitos sociólogos, seja presidente ou professora universitária, imaginem ser possível uma economia globalizada solidária.
O acesso fácil às informações e acontecimentos do outro lado do mundo dá a sensação de poder. Poder saber de tudo, poder de decisão. Poder, simplesmente! Mas saber, por exemplo, que o mercado asiático está em recessão ou expansão, que a Argentina, Cuba e Afeganistão sofrem com a política internacional, que a Inglaterra alinha-se imediatamente aos interesses americanos, não são garantia de que fazemos realmente parte deste mundo.
Conhecer os acontecimentos políticos, sociais e econômicos de qualquer parte do planeta, pelos meios de comunicação convencionais ou não, não é sinônimo de informação democratizada. Ou será que não existem quem manipule o que é lido, ouvido e visto? Na era da globalização, pouco se discute sobre a ideologia da informação. Aquilo que está por detrás de cada notícia é o pequeno detalhe que cria a indiferença gerando as grandes diferenças sociais.
Analisar as consequências deste modelo (mais uma vez gira em torno de questões econômicas) é meter o dedo na ferida. É preciso ir a fundo na discussão sobre o processo, nem sempre visível, da privatização do sistema de saúde e da educação em prol da medicina privada e de grupos pseudo-educadores. É preciso questionar porquê o Brasil renega a agricultura, quando a Europa mantém subsídios milionários ao setor. É procurar entender e combater porquê os EUA insistem para que a América Latina abra as pernas aos produtos americanos, enquanto Tio Sam protege suas fronteiras de produtos concorrentes. O mundo tem dono e, também, muitas porteiras.
Manutenção do capitalismo e renascimento do comunismo? Os debates dos Fóruns de Porto Alegre e Nova York provocam muitas teorias, ataques e defesas. Diriam o neoprofessor, neoprofissional ou ‘‘neoqualquercoisa’’ que o comunismo caiu junto com o Muro de Berlim e que a União Soviética desintegrou-se; que vivemos em outra era. Tudo bem, mas o World Trade Center também caiu!
Se por um lado, a queda das torres é um ato terrorista, por outro significa um recado à grande potência sobre o que esta prática com a soberania de outros, principalmente quando, sob pretextos humanitários, as disputas são temperadas com petróleo e qualquer outra coisa que possa ser transformada em dinheiro.
A humanidade em toda a sua história demostra o quanto tem de perversidade. Basta analisar o quanto de sangue foi derramado, milhares de anos antes de Cristo e até mesmo hoje, seja pelo terrorismo de grupos à margem do processo de produção e distribuição de riquezas, seja pelo terrorismo de Estado que conta com apoio de organismos internacionais.
Um outro mundo é possível. Um mundo com distribuição melhor de renda; acesso às políticas públicas como escola, sa© úde, cultura; acesso à moradia e à comida. No campo político, as chamadas políticas de inclusão social da esquerda estão aí para mostrar a viabilidade e o alcance dos projetos. Tanto que até o neoliberal e presidente FHC aderiu a elas. No campo humano, um outro mundo é possível. Basta que o ser humano, aquele que na essência teve um sopro divino, diga-se adormecido pelos egos, queira. No entanto fica a pergunta: quem quer e luta por um outro mundo?
REINALDO ZANARDI é jornalista, especialista em Saúde Coletiva e professor universitário em Londrina.

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