O mundo não acabou
Maria Lucia Victor Barbosa
Pois bem, o mundo não acabou desfeito em chamas, soltando fumaça nas adjacências estelares depois de serem entornados sobre a terra os oceanos e submergido das rachaduras de tremendos terremotos todos os viventes que sobraram das águas marinhas e das labaredas de infernais vulcões desembestados.
Em vão soaram atabaques, tiniram sinos, dançaram seguidores das mais esdrúxulas seitas, aterrorizaram profetas do Apocalipse, pífios arremedos de Nostradamus. Qual nada. O mundo não acabou. Não fomos devastados por um meteoro descomunal vindo das profundas do cosmos e, assim, continuamos impavidamente, certos que somos o centro do universo e atolados na costumeira babaquice, característica mor da humanidade.
O Brasil não foi sequer agraciado com a visão do último eclipse do milênio, pomposamente anunciado como se eclipse não fosse um fenômeno corriqueiro, e como se o tempo existisse tal como o dividimos. Aqui, neste país tropical, continuamos na mesma com os apocalipses de cada um, porque não há vida sem catástrofes particulares. Mesmo porque, se temos ao nosso dispor uma exuberante natureza, nós a destruímos sistematicamente. E se somos abençoados com imensas riquezas naturais, de modo geral somos pessimamente governados, o que gera o contraste entre riqueza e pobreza, entre os poucos que possuem muito, principalmente nas perdulárias cortes do poder eleitas por nós, e os muitos que têm pouco ou quase nada. Mas mesmo estes últimos não estão nem um pouco interessados no fim do mundo, porque de folia, de pagode e de cachaça vai-se vivendo por estes brasis afora. Quem fala em crise e a sente é a classe média, porque o pobre, como dizia meu amigo Mata-Sete, já está ‘‘deixado’’, e para o rico não faz a menor diferença uma inflaçãozinha aqui, um aumentozinho ali, um desempregozinho acolá.
Pois é, conforme se previa, apesar das crendices pregadas com o martelo da ignorância no bestunto coletivo chamado pedantemente de imaginário popular, nem o mundo acabou, quanto mais este país gigantesco chamado Brasil, que aos solavancos prossegue nas trilhas esperançosas do futuro sem cuidar adequadamente do presente.
E se nada se findou, conforme anunciaram os aproveitadores e os Nostradamus subdesenvolvidos, seguindo em frente apenas as catástrofes naturais e as que o homem inventou, tais como os burocratas, as filas, e os políticos - ressalvadas as honrosas exceções - melhor para todos e melhor para mim. Sem o extermínio do globo, poderei calmamente lançar meu quarto livro, no dia 19 deste renascido mês de agosto, a partir das 20 horas, na Livraria Bom Livro do Catuaí Shopping Center. Para o lançamento convido meus caros leitores, aos quais desvendarei minha face oculta, aquela nunca dantes conhecida nas páginas deste jornal ou nos meus três livros anteriores.
Face oculta, dirão, só tem a Lua. E é aí que se enganam. Todos nós temos nossos mistérios. O meu emerge da literatura, e se apresenta com o nome de ‘‘Contos da Meia-noite’’, que acredito ser a melhor coisa em matéria de escrita que já consegui criar. Por quê? - alguém pode perguntar. Porque desta vez optei pelo vasto mundo da ficção que atinge a todos independente de classe, sexo ou profissão. Não há fronteiras na literatura. Como não há limites para a imaginação. Tampouco existe indignação nem julgamentos amargos no encontro das mentes através de um livro de contos. Neste território do espírito só valem emoções e sentimentos. Por isto livro é magia em estado puro.
Quem escreve de forma literária o faz para encantar seu tempo e deixar um rastro na eternidade. O escritor capta a realidade e a conecta na fantasia. Ele retransforma reminiscências, esculpe experiências, insere no texto observações muito particulares. Tudo é raptado para a dimensão onde o pensamento é livre, possibilitando aventura alada na qual os vôos alcançam alturas inimagináveis.
Fazer literatura pode e deve significar o libertar-se do cotidiano, do corriqueiro, do vulgar. Desse modo, na obra escrita os tipos criados são transfigurações dos tipos reais. São arquétipos, idealizações, mas acima de tudo, identificações. Personagens somos nós de forma exagerada, e através deles realizamos, com o poder da criatividade de que todo ser humano é dotado, nossos mais caros objetivos, nossos profundos sentimentos, nossas secretas ambições.
Por conta dessas coisas, ‘‘Contos da meia-noite’’, editado pela Campanário Editorial e prefaciado por Déa Alvarenga, diferente dos meus outros livros alicerçados em metódicos estudos e árduas pesquisas, é fruto do meu espírito por ser resultado da imaginação. Nas estórias por mim inventadas, onde sempre à meia-noite acontecem coisas do outro mundo, cruzo dimensões de vida e morte, e devasso o tempo. Os contos, juro, são de arrepiar.
Na verdade, permiti-me em alguns contos - são nove ao todo - sobrevoar a universalidade que desconhece fronteiras entre países. Exemplo disto está no meu predileto, ‘‘Retrato a Óleo’’. De outros emerge um gênero de terror brasileiro, bem ao nosso jeito, e que portanto faz rir, coisa tão necessária nos tempos que correm. É o caso de ‘‘A Criatura’’, uma sátira de aspectos da vida nacional, ou ‘‘Buchada de Bode’’, sátira política que começa numa Câmara de Vereadores mal-assombrada.
Advirto, porém, aos caros futuros leitores do livro, que nunca leiam esses contos à meia-noite. Não posso me responsabilizar pelo que possa acontecer. Feita essa única recomendação, garanto a todos que me seguirem com sua curiosidade, que irão de espanto em espanto até o fim da leitura, onde o mistério será guia e a imaginação companheira constante.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

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