O ano de 2014, além de ser o ano que o Brasil sediará a Copa do Mundo, também é um ano eleitoral e novamente a relação entre política e futebol vem à baila. O professor Clodomiro José Bannwart Júnior, professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina, ao mesmo tempo que se opõe e resiste aos gastos para realizar o Mundial, o País está amadurecendo o debate político e pode dar um salto ao se livrar de práticas como as barganhas e os fisiologismos dos outros anos.

Banwart explica que a campanha para trazer a Copa do Mundo ao Brasil surgiu em 2009, quando Lula enfrentava duas crises. Naquela época havia um clamor pedindo a saída do senador José Sarney da presidência da casa e, paralelamente, surgiam as notícias de que a sua candidata à sucessão, Dilma Roussef, estava com câncer, pouco após o desmantelamento provocado pela divulgação do escândalo do mensalão. Ao mesmo tempo, o Brasil saía ileso da crise econômica de 2008 que assolou a Europa e os Estados Unidos e Lula queria mostrar a força do País.

No entanto, a expectativa de colher dividendos políticos de sediar uma Copa se inverteu. "A baliza para isso foram os protestos do ano passado. As pessoas também querem fazer parte da gestão democrática e da pauta dos problemas nacionais", afirmou.

Como a Copa do Mundo irá afetar a campanha presidencial?
Podemos afirmar que já afetou. As manifestações de junho de 2013 tiveram início em São Paulo. Na pauta dos protestos, estava a tarifa de ônibus e a mobilidade urbana, as quais estavam inseridas como ‘promessa’ no pacote da Copa. Foi vendida a ideia de que o Mundial iria permitir refazer parte significativa da infraestrutura. As manifestações de junho de 2013 foram um marco na constatação de que os altíssimos investimentos na construção e na reforma de estádios não necessariamente estavam unidos à tão esperada revolução na infraestrutura. O descompasso entre a Copa e o legado que a mesma deixaria foi deflagrado já no ano passado, o que mostra que a copa havia saído da pauta esportiva para entrar, de vez, na pauta política.

Como isso teve reflexos na pauta política?

As manifestações de junho de 2013 pautaram aquilo que se espera dos candidatos para 2014. E os políticos estão atentos a esse fenômeno das pessoas nas ruas reivindicando. Ainda que insatisfatoriamente, olhando no atacado, é possível perceber que os políticos buscaram, num e noutro ponto, responder aos anseios da população nas ruas. As manifestações de junho de 2013, em parte, foram contra um sistema político praticamente desconectado da sociedade. Avançamos bem pouco nas últimas décadas e, nesse sentido, 2014 poderá ser, com as pessoas nas ruas, a oportunidade de começar a fazer eleição fora desse script de barganha e de fisiologismo.

O resultado do Mundial dentro de campo poderá influenciar a disputa nas urnas?
Certamente! Historicamente sempre houve a tentativa de conexão entre futebol e política. Quando Lula, em 2009, conseguiu que o Brasil sediasse o mundial de 2014, seguramente, esperava colher dividendos políticos futuros. Apesar de todas as críticas feitas até o momento em relação a questão estrutural da realização do campeonato, uma vitória do Brasil nos gramados daria um banho de autoestima aos brasileiros que, a despeito das diferenças e desigualdades sociais, seriam irmanados no velho sentimento nacionalista.

A organização do torneio será um tópico importante nos debates entre os candidatos?
O resultado da realização da Copa poderá influenciar positivamente ou negativamente os governos federal e estaduais. Isso depende do resultado da Copa. De saída, já existe uma imagem negativa aos governos em função das críticas de gastos excessivos com a construção de estádios, supostos desvios de dinheiro público e inoperância na execução das obras. Até o momento apenas 41% das metas previstas para a Copa foram cumpridas. Isso depõe contra quem está no governo. Porém, a depender da realização do Mundial e da construção simbólica que se fará do evento – incluindo a construção da imagem do país, do povo, da hospitalidade dos brasileiros, da festa, da alegria, da culinária, do regionalismo cultural, da possível vitória da seleção brasileira, etc. – poderá ser revertida esse juízo negativo de inoperância que se está vendo no momento. Então, a realização do evento e sua finalização serão decisivos para o posicionamento dos candidatos no tabuleiro da disputa eleitoral pós-Copa.

E em relação aos atos de vandalismos que eventualmente podem acontecer em protestos contra a Copa? Quem pode perder ou ganhar com isso?

Quem perde com atos de vandalismo somos nós, o povo. Creio que é preciso fazer uma distinção conceitual entre vandalismo e protestos. Com os protestos e as manifestações de ruas ganhamos todos, inclusive e principalmente a democracia brasileira que sai fortalecida. No caso de atos de vandalismos perde-se o fio condutor da democracia.

A preparação dos candidatos será mais curta este ano em função da Copa?

Ainda que o processo eleitoral, em tese, ainda não pode acontecer nesse momento, na prática a disputa pelos cargos já está em andamento há bom tempo. Há movimentação articulada dos candidatos, principalmente, à presidência da República e acertos partidários nos Estados. A Copa, nesse sentido, não altera praticamente nada. Porém, o resultado dela – falo das condições de segurança, infraestrutura, logística e operacionalidade – pode sim influenciar significativamente no desdobramento eleitoral depois de julho. A depender do sucesso ou do fracasso da realização da Copa, pode-se colher resultados positivos ou negativos para quem, no momento, está no governo em nível federal e estadual.

De que modo a Copa e seus desdobramentos afetam os governos estaduais?

Parte determinante das eleições estará sedimentada no computo final da Copa. Se o resultado – mesmo diante da falta de infraestrutura e de obras inacabadas – for positivo, ou seja, se a Copa conseguir passar um sentimento positivo à população de um modo geral, então ganharão governo federal e também os governos estaduais que sediaram os jogos. Se o resultado for negativo, possivelmente perderão todos. No Paraná, o governo do PSDB de Beto Richa irá enfrentar uma candidata do PT que gravitou todo esse tempo de preparação da Copa na órbita do governo federal. Nesse caso, um resultado negativo tende a prejudicar mais a imagem da candidata do PT, pois o peso negativo, certamente, irá recair mais acentuadamente no governo federal, responsável por boa parte das obras em andamento.

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