Virou moda dizer-se que toda a violência, todos os abusos, todos os desatinos cometidos por integrantes do MST contra os produtores rurais não passam de uma inocente maneira de chamar a atenção do governo, que nada teria feito para agilizar a reforma agrária em que pese os bilhões já aplicados neste projeto. Através de tal raciocínio, é ‘‘justo’’ que depois de impingir o terror no campo o MST acelere sua escalada ‘‘revolucionária’’ nas cidades. Para isso o movimento invade prédios públicos, mantém funcionários reféns, bloqueia estradas, organiza manifestações e provoca o presidente da República ameaçando invadir a propriedade de sua família em Buritis (MG). É o vale-tudo onde a desordem é propositadamente disseminada, na verdade não em nome da reforma agrária, mas da implantação de sistemas que recentemente fracassaram em todo o mundo, coisa que os dirigentes do MST têm apregoado abertamente através da imprensa.
Um ponto obscuro que porém se coloca, diz respeito a alegada falta de recursos governamentais. Afinal, os deslocamentos constantes dos sem-terra de um Estado a outro demandam verbas bastante substanciais para o custeio de transporte, alimentação etc., mas de onde elas vêm? Afinal, ou o movimento é abastado ou pelo menos parte dos vultosos e necessários recursos para os deslocamentos provêm do governo, que assim, curiosamente, alimentaria o achincalhe e o descrédito contra si próprio. É também no mínimo curioso o fato de que nenhum sem-terra se preocupou com o prejuízo causado pelas últimas geadas, ou solicitou interferência governamental para contornar os graves problemas causados pelo flagelo climático, como o fizeram os verdadeiros produtores rurais do Paraná e de outros Estados.
Observe-se, que a ‘‘Marcha pela Reforma Agrária’’, iniciada no início da semana passada em Teodoro Sampaio (SP), e que saiu enfeitada com muitas bandeiras vermelhas sob a liderança do dirigente nacional do MST José Rainha Júnior, o qual ameaçava ‘‘colocar fogo em todos os latifúndios do Pontal do Paranapanema’’ caso o governo do Estado não acelere a arrecadação de terras, contou, segundo o movimento, com 600 participantes rumo a Presidente Prudente. É gente que demanda um gasto nada modesto.
Na semana anterior, o MST também havia recrudescido em invasões a prédios públicos, mostrando sua face urbana. Houve invasões em 9 Estados a sedes do Incra, da Receita Federal e a bancos. Como foi aventada a possibilidade por parte do governo de ações judiciais contra o movimento, os prédios públicos foram desocupados e na sua frente armados acampamentos. Desse modo, os sem-terra exibiram mais uma vez seu espetáculo do ‘‘turismo revolucionário’’, no intuito de causar compaixão e adesão da parte incauta da opinião pública.
Toda essa movimentação parece ter como motivo a reivindicação de verbas, que nunca foram dadas ou estariam atrasadas. Como era de se esperar, o governo contesta tais afirmações e demonstra os bilhões já investidos na hipotética reforma agrária. Independente, porém, de quem tem ou não razão, seria lógico perguntar se o que já foi repassado através de dinheiro público foi corretamente aplicado pelos assentados.
A resposta a essa indagação em parte aparece no jornal ‘‘Folha de S. Paulo’’ do dia 10 deste, através de notícia entitulada ‘‘O Rainha está nu’’, da autoria do jornalista Josias de Souza. O texto é bastante longo e não dá para citá-lo na íntegra, mas vale a pena transcrever aqui um pequeno trecho, pois afinal estamos vivendo em todo o Brasil um período em que se cobra do Poder Público mais honestidade, sendo que isto deve valer também para os cidadãos e para as organizações que representam categorias sociais.
Segundo Josias de Souza, o MST instalou em Teodoro Sampaio, com dinheiro público, a cooperativa dos assentados da área do Pontal do Paranapanema, Cocamp, que ‘‘não resistiu a 35 dias de auditoria’’. De fato, constatou-se que foi muito o dinheiro desviado da reforma agrária, como verificou a Secretaria Federal de Controle Interno, órgão do Ministério da Fazenda.
Vejamos, então, como exemplo, uma das informações dadas pelo jornalista: ‘‘R$ 3.741.696: o dinheiro pingou na conta da Cocamp em janeiro de 98. É aplicado na construção de um complexo agroindustrial dotado de laticínio, despolpadeira de frutas, silos, armazém e frota de cinco caminhões Mercedes-Benz. A coisa deveria funcionar ainda em 98. Descobriu-se que o projeto era um aleijão. Não previa necessidades básicas. Por exemplo, energia elétrica, poço artesiano, rede de distribuição de água e caldeira de máquinas. O governo aprovou nova versão do projeto. O valor do empréstimo não foi alterado. Ou estava superfaturado na origem, ou será difícil levá-lo até o fim. No momento, além das obras civis, a única coisa que se move no complexo agroindustrial do MST são os cinco caminhões. Custaram R$ 493.782. Embora não tenham o que transportar, rodam a mais não poder. Seus hodômetros registram quilometragens entre 48,45 km e 73,317 km. Um deles encontra-se recolhido ao depósito do Detran, em São Paulo, por problemas de documentação.’’
Essas são apenas algumas das constatações de um profissional dos mais conceituados. Some-se a isso denúncias de outras irregularidades na aplicação de verbas, conforme a ‘‘Folha S. Paulo’’ do último dia 12, como é o caso da Coagri em Laranjeiras do Sul (PR). Também em Bituruna (PR) foi apontada a cobrança de ‘‘pedágio financeiro’’ de 3% sobre as verbas destinadas a assentamentos, esquema que envolveu técnicos do Projeto Lumiar, responsáveis por prestar assistência a assentamentos. Esses técnicos são pagos pelo Incra mas indicados pelo MST.
Diante de tudo isso concordamos com Josias de Souza, quando este encerra seu artigo afirmando que um ‘‘cheiro de peixe podre exala dos porões do MST’’. ‘‘Difícil dizer’’, conclui o jornalista, ‘‘qual será a cara do movimento depois dos golpes de ar fresco soprado pelas auditorias. Mas é certo que perderá aquele ar de imaculada inocência.’’
- FRANCISCO LUIZ PRANDO GALLI é presidente da Sociedade Rural do Paraná

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