Amanhã sempre será o primeiro dia do resto de nossas vidas – ainda que viver, cada vez mais, se demonstre um ato de resistência, demandando muito além de alinhamentos e desencontros sobre remorsos mal dormidos em terra morta.

Bem por isso não dou partida neste artigo com um surrado e pedante ‘eu avisei’ – até porque não o fiz, apenas disse minha crença, em uma triste segunda-feira, após a malta fascista desconsiderar o verde da árvore dourada da vida.

O desencanto foi momentâneo e não me rendeu, naquilo que o encanto pertence aos que vencem a primeva dificuldade de bem querer e abracem, sem hesitar, um qualquer ‘brilho de aluguel’ a lhes valer pela fantasia de existir – afinal, já fomos felizes para não sermos contentes...

Eis minha crença e ela é desenhada sobre circunstâncias cerzidas na salvaguarda de pautas progressistas.

As diferenças de ontem pintaram a cara do hoje, deixando evidente o abismo estabelecido entre o mundo na primeira metade do século XX (notadamente o entre guerras que pariu o fascismo) e o início do século XXI, onde o totalitarismo se pronuncia enquanto espaço de manobra do capitalismo em declínio.

É consenso, outro tanto, que o fascismo não disputa corações nem mentes, naquilo que sua valença (?) não vai além do medo das gentes, na intoxicação da estética de bem viver, tirada no afã de servir de tábua de afogado para a agonia crítica do grande capital – eis aí a régua da evangelização que vem preenchendo as lacunas do conhecimento...

Nesta medida anuncia-se óbvia a estética fascista, cuja criatividade se resume ao apanágio da violência que captura a esperança, estabelecendo um desvio de conduta a minimizar a importância da estrada de bem-estar social. Tudo edificado sobre a mentira e o negacionismo.

Não é todo dia, ademais, que um país de dimensões continentais e riqueza sem fim concorda em se ajoelhar, entregando uma fatura de solução final nas mãos de um qualquer sicofanta que vomite ódio pilgrin e verborragia de senso comum. Isso ficou claro nos dias que sucederam o debacle de primeira volta, onde a desventura se assanhou além da conta, conjurando demônios antigos – desde sempre o feitiço esteve a encargo de profetas mentirosos que adormecem o conhecimento em púlpitos de ocasião.

A mentira, todavia, não alcança a verdade, da mesma forma que a autoajuda não se equipara a literatura, que Zezé de Camargo jamais se ombreará a Gil e que Ana Castela não é senão poeira do tempo se medida em polo de enfrentamento com Elis. Da mesma forma Gustavo Lima não vale o pandeiro de Jackson, nem a gaita de Dylan ou o acordeão de Dominguinhos – para nada falar de Caetano, Chico e Betânia...

Assim e então, na prima volta foi a ignorância de nossa aventura na terra a se pronunciar, auscultando a valença da conjuração de medos na captura dos ignorantes que ajoelham para um altar de mentiras.

Foram estes, todavia, os sinais que teimaram no enfrentamento de meu desânimo momentâneo – além de inúmeros outros como, por exemplo, a covardia da Vênus platinada das comunicações em receber, para almoço, uma das partes ao tempo em que impedira, no dia anterior, o mais fabuloso de seus contratados de abraçar Lula no camarim.

Percebes a distopia da peia com que se buscou frear o galope do ‘alazão da noite, cujo nome é Raio’?

Passa que a urgência da vida não se rende às intempéries estéreis do malmequer, naquilo que viver é mais, viver é plural e amar segue sendo intransitivamente verbal, como se subsome da relação que o sentimento estabelece com as pessoas.

Foi assim, na conta do sentimento e da pertença de bem querer, que milhares e milhões, atendendo ao chamado das necessidades, estabeleceram sua urgência, colmatando estatísticas de interesse.

Feito o fogo fátuo de ontem, as pequenas reminiscências fugidias da virtude caída não lograram estabelecer uma realidade paralela e, assim, não se consumou a captura do brilho da cauda dos cometas a cortar o céu.

Bem por isso eu soube que a malversação de nossos caminhos passaria, restabelecendo um roteiro de bem viver – afinal não há outro caminho para aportar na estrada que vai dar no sol...

Desperto, o gigante gritou por suas ruas de perseverar e, na segunda volta, a verdade espancou as ilusões do rentismo. Milhares e milhões de jovens, idosos, negros, brancos, amarelos, vermelhos (que te quero vermelho), de mulheres, homens, de mulheres homem e de homens mulher (que a orientação é de cada um e não de domínio público) – fomos muitos e bastantes, lembrando a primavera se anunciando no cheiro das cores.

O azul de dias vindouros acomodou as distâncias e a distopia dissipou...

Peleamos contra a parcialidade de algumas togas, contra o interesse alienígena de desqualificados pilgrins, contra a ausência de metafísica do vale do silício, contra a imprensa familiar brasileira (frias + marinho + mesquita + civita), contra a ignorância dos que se deixam tanger pelo som do berrante. Peleamos contra quase tudo que o dinheiro compra!

Lutamos ‘quando era fácil ceder’, justamente para ‘virar esse mundo, cravar esse chão’ e o mundo está vendo e reverenciando ‘a flor que brotou do impossível chão’, naquilo que as batalhas contra o fascismo são cotidianas e inadiáveis – afinal viver é plural enquanto a opressão não é senão a face do mal.

Tristes trópicos. Saudade Pai!

João Gomes Filho, advogado

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