Virada. O momento é de virada. Mas não daquelas que ruem sobre os ombros da civilização de quando em quando e fazem parecer caquéticas todas as crenças, instituições e o diabo que o valha. Até porque nada mais há de novidade neste horizonte que aparta os milênios capaz de virar tudo de uma só vez. Coisa do passado, tal qual no final do século 18, quando os franceses arruinaram a aristocracia, legaram para o lado de lá do Canal da Mancha a reverência à família real e entregaram aos mascates estabelecidos as chaves da modernidade. Ou, ainda, como no início deste século 20, quando os russos começaram imolando os que além da oficina mantinham uma dacha nos arredores do Kremlim e terminaram rascunhando a linha divisória do mundo geopolítico por mais de 70 anos.
Nosso passado recente foi acentuado pelo duelo tosco entre os que apostaram na contínua prosperidade vislumbrada pelos girondinos e os outros, que preferiram se entregar à crença na fraterna justiça social anunciada pelos bolcheviques. Demos todos com os burros n’água, independentemente do lado que escolhemos para torcer e, em alguns casos, até duelar. O laissez-faire, laissez-passer erigiu igualmente fortunas e flagelos ao redor do planeta. Falhou.
O centralismo estatal, por seu turno, nada produziu além de um amálgama de descontentes integrados e apocalípticos alucinados, todos imobilizados pela pata pesada e soberana do Estado. Também não deu certo. Tese e antítese foram apresentadas à humanidade. Falta, agora, a superação, a virada, a síntese. Sem prefixos - como os pós, neos e quetais. Há de ser novidade, não valem reedições de truques teóricos.
O neoliberalismo, por exemplo, transporta o prefixo neo mas foi teorizado meio século atrás, depois da guerra, por um grupo de economistas que não queria sequer ouvir falar em Estado de bem-estar social. Acreditavam que o Estado não deveria ingerir-se nos rumos econômicos e sociais da nação. A teoria ‘‘colou’’ na década de 80, começando pela Inglaterra de Margareth Thatcher e pelos Estados Unidos de Ronald Reagan, para citar o exemplo de duas nações de forte influência em seus respectivos blocos.
O nível do desemprego cutucou a estratosfera nesses países. Não demorou muito para que o ‘‘erro’’, chamemos assim, fosse desfeito. Uma década depois, a situação se reverteu. A ‘‘mão invisível’’ do mercado acabou sendo enfiada em luvas. Entendem os governantes modernos que o Estado deve, sim, ocupar-se da manutenção dos empregos e do bem-estar social de seus cidadãos, até como combustível para o dinamismo econômico da nação.
Nos dois países, despencaram os indicadores do desemprego e subiram os da renda e da poupança. Nos Estados Unidos, a taxa de desemprego caiu para 4,5% da população economicamente ativa, a mais baixa dos últimos 30 anos. O Produto Interno Bruto (PIB) vem crescendo 4% ao ano nos últimos três anos (em 98, o PIB brasileiro cresceu apenas 0,15%). De 1995 para cá, 8 milhões de empregos foram criados nos Estados Unidos - quase a população de todo o Paraná (9 milhões).
Pode-se afirmar, neste caso e a grosso modo, que o capitalismo se rende à ótica social até há bem pouco defendida quase exclusivamente por socialistas ‘‘tresloucados’’. Caso oposto é o da China, que atravessou três décadas entrincheirada economicamente nos cânones do marxismo e, na virada dos 70 aos 80, achou por bem que estava na hora de adotar, mesmo que timidamente, princípios da livre empresa.
Ainda que sob a batuta do Estado, não deixa de ser, no entanto, uma via alternativa, uma saída que vai apresentando a nação entre as candidatas a potência do início de milênio. Em 1995, a China exportou US$ 148 bilhões e importou US$ 135 bilhões (superávit de US$ 13 bilhões na balança comercial). O Brasil recebeu no mesmo período US$ 47 milhões com as exportações, mas gastou US$ 53 bilhões importando (rombo de US$ 6 bilhões na balança). É como se naquele ano o Brasil tivesse perdido, somente com o déficit, seis investimentos iguais ao que a Renault está fazendo no Paraná.
Estados Unidos, Inglaterra e China, a seu tempo e modo, aproximaram-se da virada. É cedo ainda para vaticinar o sucesso ou o fracasso das respectivas ‘‘reorientações’’ econômicas desses países. Destaque-se que os três apresentam em comum o fato de não terem seguido (e não seguirem) cartilhas de organismos internacionais quando estes apontam para interesses contrários aos seus. Impuseram autonomia para proteger-se de efeitos predatórios da integração global das economias (ou globalização, como queira o leitor).
A China, por exemplo, não integra a OMC (Organização Mundial do Comércio) e ruma próspera e economicamente (apesar dos problemas de violação de direitos humanos, mas esta é outra história). Os Estados Unidos boicotam a compra de produtos originários de países que, voluntária ou involuntariamente, deixam de jogar de acordo com as regras do momento, geralmente ditadas pelos americanos.
A Inglaterra, agora ligada fisicamente ao continente pelo Eurotúnel, não embarcou na onda do euro, a ‘‘moeda única’’ - que, por enquanto, facilitou a vida de turistas mas não encontrou forças para uma queda-de-braço de igual para igual com o dólar. E assim vão eles. O Brasil, que deve perder para Espanha ou Canadá o posto de oitava economia do mundo (tão alardeada pelos ufanistas), deveria arregalar os olhos a exemplos - ora subjetivos, ora objetivos - como o desses e de outros países que, bem ou mal, já vão preparando suas viradas. Ou, no mínimo, buscando o melhor caminho para chegar a elas. Sempre, porém, por conta própria.
- FERNANDO MENDONÇA é jornalista em Curitiba

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