O governo comemora uma supersafra no último verão. No mesmo embalo, a Sociedade Rural do Paraná anuncia resultados de uma feira também com recordes de comercialização. Olhando assim, a partir do ‘‘andar de cima’’ – otimismo governamental e de produtores de bovinos de elite – parece que tudo corre muito bem para a agropecuária nacional.
Mas, basta desviar os olhos para o ‘‘andar de baixo’’ – onde está a maioria dos produtores brasileiros – para verificar que a realidade é bem diferente. A agropecuária brasileira está ingressando em uma crise imensurável.
Não é apenas aquela clássica lei da oferta e da procura (superprodução, preços baixos e descapitalização do produtor). É o sistema neoliberal que mostra evidentes sinais de esgotamento e de, em consequência disso, deterioração da produção brasileira.
Os exemplos do esgotamento desse modelo são muitos. Vamos elencar apenas os mais visíveis à sociedade como um todo. Os cafeicultores buscam, via ações judiciais, frear a especulação da indústria e das grandes empresas exportadoras que a cada semana divulgam pesquisas com previsões de supersafra de café. O objetivo é claro: pressionar para baixo o preço do produto, já em patamares irreais para os produtores.
No setor de frangos e suínos, os produtores integrados pedem socorro. O modelo de produção integrada – engendrado no modelo neoliberal do lucro a qualquer custo – descobrem agora os produtores, só interessa às indústrias integradoras.
Na integração, o pequeno e médio entra com os encargos trabalhistas, com os custos de infra-estrutura e de produção e a indústria paga, ao final do processo, um prêmio ao produtor, que pagou à ela (indústria) pelos insumos e assistência técnica.
Não menos grave é o setor de leite, onde as multinacionais assumiram o papel das grandes indústrias integradoras do setor de carnes no papel de exploração do produtor. Não é de graça que a cada dia mais leiteiros deixam a atividade. Basta olhar os veículos especializados e verificar a quantidade de anúncios de liquidação de plantel de tradicionais produtores de leite.
A lógica de exportar é o que importa – assumida ao longo do anos neoliberais pelo agronegócio brasileiro –, também dá sinais de saturação na carne bovina brasileira. Depois de um ano (2001) em que o país ultrapassou a marca de US$ 1 bilhão de exportações, o setor cai agora na realidade. O desempenho do ano passado foi apenas pontual, não uma tendência que demonstrasse uma valorização da carne brasileira no exterior.
A volta ao mercado de uruguaios, argentinos e o fim do trauma da vaca louca na Europa, colocou as exportações brasileiras de carne bovina em seu devido lugar, ou seja, marginal dentro do mercado mundial. A alternativa ao mercado externo, que seria o consumo interno de carne bovina, esbarra nas desigualdades sociais do país. Nos últimos oito anos a população brasileira ficou, na média em nível nacional, 36,8% mais pobre e, evidentemente, menos consumista. Isso graças ao modelo neoliberal de concentração de renda nas mãos dos 10% mais ricos do país, hoje controlando 54% do PIB nacional.
E para encerrar o esgotamento do modelo na nossa agropecuária, presenciamos a invasão das lavouras nacionais pela soja transgênica. O hoje talvez mais importante commodities nacional, corre o riso de perder o mercado europeu pela opção preferencial pela soja geneticamente modificada. Um opção mais uma vez na contramão da história, quando sabemos que Estados Unidos e Argentina, os principais produtores de soja transgênica, já começam a repensar essa opção.
José Maschio é jornalista em Londrina

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