Estruturar democraticamente nossa maneira de ver o mundo envolve refletir constantemente sobre a importância do respeito a pluralidade étnica e cultural, características básicas que marcam a história do Brasil. Ter isto em mente é premissa básica para não cair na ilusão de compactuar com modismos atuais baseados em relativizações perniciosas, revisionismos tendenciosos e proselitismos fundamentalistas, atitudes que podem muito bem ser nomeadas como vale tudismo, modelo de pensamento alinhado ao que podemos chamar de pós-verdade.

Atuando em uma lacuna política aberta pela esquerda brasileira representada pelo PT, incapaz de sustentar uma aliança nefasta (fadada desde seu início ao fracasso, diga-se de passagem) firmada com a aristocracia política e grupos de empresários, os adeptos do vale tudismo, crentes no "pode qualquer coisa", apresentam ao seu público ideias que em nada correspondem com as premissas que regem uma democracia. E como se isso não bastasse, discursos assim criam todas as possibilidades para a ascensão de sentimentos que beiram o fanatismo, historicamente provaram-se ineficazes e acabaram conduzindo milhões de pessoas a enfrentar momentos terríveis de privações. Desse modo, aproximam-se dos extremos do mundo das ideias. E o extremismo das ideias, como bem destaca o historiador italiano Norberto Bobbio, tem uma profunda aversão para com a democracia.

Quando contrariados, é prática comum desses extremistas do vale tudismo adjetivar adversários ideológicos de comunista, esquerdopata, vagabundo. Fazem isso e ainda publicam em redes sociais sem qualquer pudor. Agora, arriscar chamá-los de extremistas de direita é considerado por eles absurdo, uma aberração advinda de pessoas que não possuem capacidade intelectual de compreendê-los.

Em meio a esse universo em que a desonestidade intelectual reina absoluta, discutir questões importantes para um país marcado por mais de 300 anos de colonização e quase 400 de escravidão é delírio. É assim que neste jogo perverso algumas questões defendidas pela turma do vale tudismo estão profundamente alinhadas com as diretrizes da pós-verdade.

A seguir, algumas delas: um tema sério como a identidade de gênero vira ideologia de gênero (como se ideologia fosse algo restrito apenas a quem compactua das "ideias de esquerda"); a violência se resolve com a violência; nunca houve ditadura no Brasil; os professores devem ser vigiados e denunciados por um projeto chamado Escola sem partido; as universidades se tornaram centros de doutrinação esquerdista; não há necessidade de debater temas ligados aos direitos humanos; políticas de ações afirmativas são esmolas; o racismo com o tempo desaparecerá "naturalmente" de nossa sociedade; terras indígenas não devem ser demarcadas, mas sim "liberadas" para o avanço do agronegócio; armas devem deixar de ser regulamentadas e liberadas para o "povo se defender"; estupradores devem ser castrados. E, talvez, a mais absurda de todas: Hitler não era de extrema direita, mas sim de extrema esquerda, inclusive era marxista.

Dias atrás, a população londrinense teve a oportunidade de, se não rechaçar, ao menos ignorar a visita de um deputado profundamente alinhado a essas ideias. Mas, ao contrário, uma multidão foi recepcionar um personagem político que o historiador Raul Girardet, em seu livro "Mitos e mitologias políticas", destaca ser figura historicamente presente: o ser mítico, o salvador.
A mitificação ufanista em torno desta figura levou certas pessoas a considerá-lo como um tiozão do bem, um reaça bacana que todos nós gostaríamos de ver nas festas de família de fim de ano. Para outras, o descontentamento da população com a atual conjuntura política justifica sua ascensão. Triste ambas as constatações, pois é justamente isso o que se faz no mundo da pós-verdade: banaliza-se o mal, travestindo-o de bom mocismo.


LEANDRO CESAR LEOCÁDIO é professor de História e mestre em História Social pela Universidade Estadual de Londrina

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