O mito do corpo perfeito
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de março de 2003
Moacir Costa 
Hoje a preocupação com a beleza tem sido um tanto exagerada. As mulheres se tornaram as maiores escravas desse mito do corpo perfeito, mas os homens também sofrem com a queda de cabelos e o aumento da barriguinha.
Desejar manter a forma, seguir uma alimentação saudável e fazer exercícios regulares é positivo, mas algumas pessoas parecem viver apenas em função disso. Submetem-se a lipoaspirações sem necessidade, implantam silicone em seios perfeitos, malham duas, três horas seguidas.
Muitas vezes, jovens ainda na faixa dos 15-18 anos já estão em busca do corpo perfeito. Fazem ginástica de forma obsessiva, submetem-se a cirurgias desnecessárias para ficarem parecidas com as musas da televisão, uma verdadeira aberração em termos de comportamento. Ao mesmo tempo, acabam deixando de lado a sua vida afetiva e sexual.
Há quem não transe de luz acesa porque teme que o companheiro veja melhor o desenho do corpo. Na verdade, essas preocupações absurdas só servem para agravar a insegurança e a falta de confiança das pessoas.
Se a mulher acha que tem celulite e propõe fazer sexo com a luz apagada, por exemplo, acaba valorizando um ''defeito'' que o parceiro nem sequer havia notado.
Em vez de curtir o prazer do sexo, fica o tempo todo ligada se uma determinada posição irá favorecer as suas formas ou revelar outras imperfeições. Ora, o homem não está procurando uma deusa. Em geral, é muito pouco ligado nessas obsessões femininas. Valoriza mais o conjunto, o charme, a sensualidade, a alegria (e, claro, a mulher autoconfiante e inteligente que busca dar e receber prazer) do que medidas perfeitas.
Também é bom lembrar que, com a luz acesa ou apagada, quem está na cama é a própria pessoa. Ninguém vai se transformar em Sharon Stone por causa da meia-luz.
Na verdade, essa busca narcísea e obsessiva do corpo perfeito acaba gerando uma divisão muito acirrada entre corpo e mente, segundo a qual o aspecto físico tem muita importância, enquanto a inteligência e os sentimentos são colocados em plano secundário. Isso pode criar um processo de desintegração e confusão no que se refere à identidade de cada um, a ponto de a pessoa perder a noção de quem ela é, o que representa, quais são os seus valores, deveres e obrigações na sociedade e até mesmo qual é a importância de estabelecer vínculos de afeto.
Quem se preocupa apenas em ter um corpo perfeito deve observar se não está escondendo outro tipo de problema. É muito comum essas pessoas preocupadas com o corpo apresentarem um histórico pessoal carregado de carências e conflitos não resolvidos, sendo inevitável o surgimento de quadros depressivos. Por isso, devem procurar ajuda psicológica o quanto antes.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo


