Correr por quê e para quê? Onde queremos chegar com tanta pressa, se a velocidade, socialmente falando, é o oposto do cuidado? Quando quero ir mais rápido, é porque desejo chegar primeiro e vencer. Mas, para que eu vença, alguém precisa ficar para trás e perder. Em outras palavras, o meu sucesso passa a depender do fracasso dos outros. Será esse, afinal, o verdadeiro sentido do que chamamos de “avanço civilizatório”?

A perspectiva meritocrática tem se apresentado como justificativa para a legitimação das desigualdades sociais, mesmo quando estas atingem dimensões superlativas, como na atualidade. Só para se ter uma ideia, a fortuna de Elon Musk é de aproximadamente US$ 500 bilhões, valor superior ao PIB de mais de 160 países. Pouco importa se o resultado obtido decorre da exploração de outros humanos ou do meio ambiente, se é fruto de herança, de regras viciadas e imperfeitas, de manipulações e desvios, ou de mera sorte. Tamanha discrepância não pode ser explicada por qualquer tipo de capacidade superior, do contrário, estaríamos falando de alguém pertencente a uma espécie distinta da humana.


icon-aspas A sociedade não é a simples soma de indivíduos, até porque a própria noção de indivíduo é posterior à de sociedade."

A premissa da meritocracia desmorona quando se atestam as diferenças no ponto de partida, seja na educação, na cultura, nas redes de contato, no ambiente familiar, no país ou na região de origem. Mas mesmo a ideia de igualdade de oportunidades, é parcial e questionável, pois mantém-se presa à lógica da disputa e da corrida como princípio civilizatório privilegiado.

A discussão ganha vigor quando entendemos que até nossos talentos naturais não foram escolhas pessoais, assim como as circunstâncias em que nascemos, nossa estrutura física, cerebral e cognitiva. Essa constatação provoca uma tensão moral: por que deveríamos ser reconhecidos e premiados por capacidades aleatórias pelas quais não somos responsáveis? Tanto as capacidades inatas quanto as condições sociais com que somos agraciados são, em boa parte, “loterias”, ou seja, são distribuídas de modo arbitrário. Essa constatação justifica a necessidade de mecanismos e instituições capazes de corrigir anomalias e promover a justiça social, caso contrário, aceitaremos um retorno à “condição primitiva”, quando vigorava a lei do mais forte.


icon-aspas Tanto as capacidades inatas quanto as condições sociais com que somos agraciados são, em boa parte, loterias distribuídas de modo arbitrário."

De acordo com a filosofa Suse Pisa, a meritocracia burguesa entende que todas as conquistas são individuais e estão proporcionalmente vinculadas ao empenho e esforço de cada um. Nessa perspectiva as pessoas passam a ver o mundo a partir de si mesmas, movidas por um comportamento narcisista, em que o outro é culpabilizado por qualquer fracasso, desconsiderando-se a interferência das estruturas sociais vigentes sobre os resultados obtidos. A sociedade não é a simples soma de indivíduos, até porque a própria noção de indivíduo é posterior à de sociedade.

Não nascemos sozinhos para depois criarmos sociedades; nascemos e nos desenvolvemos em comunidade. Somos seres sociais, interdependentes, condicionados pela economia, pela geografia e pela cultura. Só sobrevivemos como espécie graças à nossa capacidade de cooperar em grandes números e de produzir formas de sociabilidade coletiva.

Questiona-se, assim, a ideia de indivíduo autônomo e a de corrida como fundamento da vida social, substituindo-as pela do bem comum. Somos constituídos por um conjunto de relações que envolvem família, professores, comunidade, país e condicionantes históricas. Além disso, ao se eleger a meritocracia como critério para justificar qualquer assimetria entre indivíduos, corrói-se a sensibilidade cívica, passando-se a entender cada um como autossuficiente, sem qualquer comprometimento ou responsabilidade com os demais - verdadeiro delírio civilizatório que ameaça conduzir-nos à ruína.

Luís Miguel Luzio dos Santos

Professor da Universidade Estadual de Londrina


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