O mito de Brejo Triste
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de abril de 2015
Clodomiro José Bannwart Júnior 
Em Brejo Triste só há lamento. Conta-se que há muitos anos uma coruja sentou na copa de uma árvore, no centro da vila, e lá permaneceu por décadas. Os antigos viram nisso um presságio. A cada piar da coruja, os sábios anciãos se reuniam em concílio para interpretar os desígnios reservados à sua gente. Com o tempo, a coruja passou a ser idolatrada. Acreditava-se que ela havia sido enviada pelos deuses. Era uma coruja sagrada e as pessoas ofereciam culto aos seus pés. Nada era realizado sem antes consultar os hermeneutas que sabiam traduzir, na exata medida, os anseios da coruja. Com o tempo, os interpretes passaram a agir de forma autoritária, fazendo uso da violência para que fosse cumprida à risca cada piar da coruja, que permanecia sempre estática e olhar perdido no vazio. Para alguns, até seu silêncio era revelador de sentido.
Para espanto de todos, um dia a coruja caiu de sua majestosa posição e espatifou-se no chão. O ancião-mor, único que podia se aproximar da coruja, anunciou em tom de pesar: "A dita está dura e morta". Foi um desespero geral, pois não sabiam quem ditaria as ordens para que comungassem uma vida social organizada. Naquela noite, no entanto, avistaram no céu uma estrela que irradiava intenso brilho de cor avermelhada. Muitos acreditaram que os deuses haviam dado novo sinal. Porém, na mesma noite apareceu no centro da vila um tucano do bico amarelo. Nunca ninguém tinha visto uma ave daquelas por ali.
Logo se formou um grupo que defendia ser o tucano o substituto legítimo da coruja e outro grupo que dizia ser a estrela a guia inconteste de todos. O vilarejo ficou dividido. Para evitar conflito, as lideranças concluíram que os dois grupos se alternariam no comando da vila de acordo com a manifestações de suas entidades e que as decisões seriam submetidas a uma assembleia.
Certo dia, o tucano grasnou e seus cantos alternados, sempre de forma regular e com horário definido, duraram oito anos. Era um tucano pragmático e bom de bico. Já os adoradores da grande estrela mãe-guia eram utópicos, pois acreditavam que o brilho da estrela irradiaria felicidade e plenitude a todos.
Durante o tucanato muitas coisas boas acontecerem. Outras nem tanto. A maior tragédia atribuída ao tucano foi a de que ele teria atraído a ira dos deuses e, por isso, os rios haviam secado, a chuva ido embora e o povo herdado um brejo seco. O tucano já não cantarolava com regularidade e seus representantes pouco consideravam a assembleia e as reivindicações populares. Para muitos, o tucano não passava de uma farsa.
Foi nesse tempo que a grande estrela mãe-guia se manifestou, expandindo seu brilho com tamanha intensidade que, passados alguns anos, foi possível notar uma quantidade de pequenas estrelas orbitando ao seu redor. Isso durou mais de uma década e muitos feitos foram realizados, além de muitos malfeitos também. Toda noite a estrela irradiava luz num ponto específico próximo ao grande rio, na margem esquerda da vila. Começaram a cavar no local e descobriram uma argila preta, muito oleosa. Não tardou para que o grande líder trouxesse a grande revelação. "Vamos escavar o precioso bem e façamos um monte bem alto para cultuarmos nossa estrela-mãe". Escavaram por anos e deixaram um buraco sem fundo no lugar. Construíram o prometeico monte com a tal argila preta que logo veio a desmoronar devido à fragilidade da construção levada a cabo por empreiteiros duvidosos. Os camaradas da estrela-guia ficaram sepultos naquele lamaçal que escorria, sem fim, por todos os lados.
Com o tempo restou apenas uma estrela sem brilho, apagada e cadente no céu. E o tucano, pobre ave, está encurvado e com o bico mais comprido a cada dia que passa. O ancião Gepeto que cuida do animal não sabe explicar por que seu bico cresce tanto.


