O mito da moeda forte
Miguel Ignatios
Responda rápido, leitor: qual foi o único país do mundo que, apesar de subdesenvolvido, ousou sonhar em ter uma moeda forte? Se você pensou em Chile, Argentina, Taiwan, Indonésia, México, Coréia, Hong Kong ou Costa Rica errou. A resposta certa é Brasil. Bem, agora, como cantava John Lennon, ‘‘the dream is over’’. O sonho acabou, mas, antes de terminar, quase virou pesadelo. Daqui para frente, temos de sonhar, mas com a realidade.
Ao criar o Plano Real, o presidente Fernando Henrique Cardoso, de certa forma, retomou, tentando atualizá-lo, no conturbado cenário da globalização da economia, o mito da ‘‘Ilha Brasil’’, do ‘‘Paraíso Tropical’’, do ‘‘Eldorado Mítico abaixo da Linha do Equador’’.
Antes dele, para citarmos apenas exemplos mais recentes, os governos militares também cultivaram à exaustão o mito de que nosso País era uma ‘‘ilha de prosperidade’’, imune às crises mundiais e às especulações e caprichos do capital. Já no período de transição para a democracia atual, o ex-ministro da Fazenda no governo Sarney, Dílson Funaro, tentou, quixotescamente, transformar o Brasil em uma Suíça tropical.
Vargas Llosa costuma dizer que nós, latino-americanos, lidamos melhor com a ficção do que com a realidade. O que espanhóis e portugueses encontraram no Novo Mundo, segundo o escritor peruano, quando aqui chegaram, era e, de certa forma, ainda é tão fantástico em beleza natural, fartura e riquezas que lhes ofuscou para sempre a capacidade de discernir entre o dia-a-dia concreto e a fantasia. Talvez ele tenha razão!
Mas voltando ao Plano Real. Após o grande e inesperado sucesso inicial do programa de estabilização, aos poucos, o País idealizado por FHC foi se transformando num ‘‘cassino’’ no qual todos perdiam (os setores industrial, comercial, do agribusiness e até mesmo o financeiro não-especulativo nacional e estrangeiro) à exceção do capital especulativo brasileiro e internacional. A ‘‘roleta’’ da especulação atraiu, inicialmente, o capital aventureiro (o hot money) para as bolsas de valores e, logo em seguida, para o financiamento do giro dos títulos da dívida pública interna, que só fez crescer.
Desde o segundo semestre de 98, todavia, os sinais de que o governo não poderia aguentar por muito tempo as pressões para desvalorizar a moeda já eram bastante claros. A moratória da Rússia foi o sinal de alerta. Daí em diante, todo o capital especulativo (interno e externo) aplicado no País passou a apostar na desvalorização do real. E ela acabou acontecendo mais cedo do que se esperava.
Mas o que fazer agora, em plena era, recém-iniciada, do ex-real forte? Trabalhar duro, concluir o ajuste fiscal para readquirir a credibilidade, redefinir prioridades, investir no setor produtivo, apoiar fortemente as exportações, incluindo nesse esforço as pequenas e médias empresas; e acelerar as privatizações do setor energético. Isso tudo, é claro, sem descuidar das reformas constitucionais.
A transição do sonho desfeito da moeda forte para a construção de um setor produtivo moderno e competitivo, contudo, não será nada fácil. Para realizá-la com sucesso, FHC precisará mais do que nunca do apoio dos partidos aliados. Ou seja, o seu poder político pessoal, subjacente à reeleição, já se esvaiu. E a segunda ‘‘lua-de-mel’’ com a opinião pública acabou antes mesmo de começar.
Se a transição for bem-sucedida (e todos nós, empresários ou trabalhadores, situacionistas ou oposicionistas, devemos fazer a nossa parte, além de simplesmente torcer para que dê certo), a única maneira de FHC recuperar o poder e o prestígio, que detinha antes da desvalorização do real, e de preservá-los até o final do mandato, será incluir o parlamentarismo na agenda da reforma política.
No sistema presidencialista, os eleitores tendem a projetar todas as suas expectativas em um homem só, deixando de lado o programa de governo e o ideário da legenda à qual ele pertence. De tal sorte que senadores e deputados são praticamente escolhidos a reboque do carisma do supremo mandatário. O desdobramento natural disso é que a cobrança dos eleitores é toda feita em cima do presidente, poupando-se ministros e auxiliares.
Ao contrário, no parlamentarismo, a figura presidencial é preservada, sendo vista pelo eleitorado como um grande articulador de alianças e de programas de governo. O eventual desgaste por fracassos e crises é diluído entre o primeiro-ministro e demais membros do seu gabinete.
Acredito ser este o momento para se voltar a refletir seriamente sobre o tema.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM) em São Paulo
E-mail: [email protected]

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