O ministro que ri - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de janeiro de 1999
Maria Lucia Victor Barbosa 
No ano de 1993, quando era prefeito de Curitiba o atual ministro do Esporte e Turismo Rafael Greca de Macedo publiquei um artigo onde o reconhecia como um político sui generis, apesar de nunca tê-lo encontrado pessoalmente. No texto eu o mencionava como o prefeito que ri, e seguia acrescentando: Ele parece irradiar uma alegria sem fim, uma energia que flui agradavelmente como para dar ânimo a todas as pessoas. Há nele uma coisa de sol. Não parece ser seu riso um riso falso. Não parece rir das pessoas como comumente acontece entre os políticos. Ele ri para as pessoas. Ri do seu próprio senso de humor. E ri irradiando felicidade. É um prefeito que parece não ter dor de dente. E rindo realiza sua obra administrativa, a mostrar que não se deve confundir alegria com irresponsabilidade.
No início de 1997, conheci Rafael Greca numa cerimônia pública, cujo objetivo era o lançamento do projeto de uma rede de artesanato que percorreria o interior do Paraná e seria implantada em velhos armazéns do IBC. Naquela tarde insuportavelmente quente, notei que a presença dele se impôs desde o momento em que entrou no salão sufocante. Então, vi, ouvi e confirmei para mim mesma, que estava certa quando escrevera que Rafael Greca era sui generis. Afinal, não era apenas seu porte físico que se destacava no ambiente, mas sim sua personalidade que se agigantava à medida que o discurso fluía.
Diante de mim estava um político que tinha alma de poeta e espírito de César, pois de sua oratória jorrava simultaneamente o refinamento cultural do homem familiarizado com extensa literatura, e a rara firmeza originada de profundas convicções, ou seja, aquilo que faz do político um líder. Deste modo, do discurso que poderia ser banal ou entendiante na tarde calorenta, brotou perfeita empatia entre o orador e o público. Todos entenderam que ele traçava seu projeto de servir ao povo com o nanquim que desenha os sonhos, e aqueles traços vigorosos se comunicaram aos presentes como uma energia incomum. Foi quando pensei: aí está um político que não apenas sabe rir. Ele um homem que levanta platéias.
Mais duas vezes ao longo do tempo tornaria a vê-lo e ouvi-lo de forma muito breve, mas o suficiente para entender pelo menos um pouco do mistério de sua estonteante alegria, e daquela energia que tem muito a ver com sol. Esses atributos vêm possivelmente de suas arraigadas convicções religiosas, as que trazem a verdadeira felicidade da paz interior, e de sua sensibilidade para com a vida no que ela tem de humano e de beleza. E deste modo novamente conclui, ampliando minha visão sobre a personalidade de Rafael Greca, que ele não era apenas um homem que sabia rir ou levantar platéias, mas também tinha a capacidade de fazer seguidores.
Agora o deputado mais votado do Paraná nesta últimas eleições, com 226.654 votos, e o terceiro mais votado do País, ele foi convocado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso para ocupar o Ministério de Esporte e Turismo e Juventude, e sem dúvida fará de sua missão um ministério no sentido mais profundo desta palavra, pois este é um cargo onde será possível transbordar seu sentimento de paranidade para o de brasilidade.
Isso é fácil de prever na medida em que Rafael Greca é dotado de imensas reservas de generosidade e idealismo, consubstanciadas na vontade de servir. Servir para este homem culto, sofisticado, viajado, é bússola que sustenta suas diretrizes, seus pontos cardeais políticos, sua vontade firme. E na medida em que serve, transita sem problema entre classes sociais, dos mais ricos aos mais necessitados. Justamente entre estes últimos faz seus mais fiéis seguidores, mesmo sem ser populista ou apelar para as artimanhas da demagogia tão entranhadas no meio político, sendo certamente este último aspecto o que o torna ainda mais sui generis.
Por isto, é completamente equivocado, leviano mesmo, julgá-lo pela frase pinçada por alguns jornalistas do seu discurso de posse quando ele se referiu ao caráter lírico que há em alguns despossuídos. Sem dúvida, foi esse caráter que inspirou mestre Vitalino quando este esculpiu seus pequenos bonecos de barro que representam os mais humildes, ou Luiz Gonzaga, autor de Asa Branca, ou ainda o insuperável Cartola a fazer versos de pura poesia popular.
De todo modo, parece-me que houve confusão entre atribuir lirismo à pobreza, o que o ministro jamais afirmou, e entender que há lirismo na figura de alguns pobres. Eu mesma conheci vários deles, como o favelado Mata Sete, que na desgraça de sua miséria me recebeu no seu barraco com a nobreza de um príncipe. Não reconhecer sua dignidade é que seria preconceituoso, em que pese compreender a indignidade que há na pobreza.
Entretanto, para os adeptos do abominável politicamente correto que é sem dúvida o apanágio dos medíocres ou dos fanáticos de certas ideologias, captar a pobreza através da dignidade essencial humana ou da arte, seria um crime de lesa-majestade, capaz até de condenar um ministro mesmo antes que ele demonstre o que pode fazer, inclusive, pelos pobres.
Contudo, seria injusto acusar a imprensa como um todo de leviandade explícita. A imprensa em geral recebeu Rafael Greca de forma carinhosa, e indicou que ele aparece como um sopro de alegria e bom humor em meio aos pesados ministérios envoltos num misto de sisudez e azedume burocrático. Na verdade, apenas alguns jornalistas se apegaram à questão do lirismo, e fizeram disto uma discussão escolástica que ficaria bem na Idade Média. Mas será que algum destes profissionais da imprensa serviram aos pobres como já o fez Rafael Greca na sua trajetória de homem público?
Tão pouco faz sentido qualquer divisão na política paranaense, ou qualquer ressentimento por parte dos que não foram os escolhidos. O Paraná tem mais é que se orgulhar dos seus filhos ilustres, e de se unir em torno deles. Afinal, qual dos Estados brasileiros tem um ministro que ri?
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina
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