O mínimo e a parábola do avarento
O mínimo e a parábola do avarento
Padre Roque
A cultura brasileira é rica em exemplos que atestam, de modo inegável, a sabedoria da gente humilde que povoa esta Nação. Digo isto para tentar desmistificar o conceito - próprio das nossas elites - de que o senso comum das classes menos privilegiadas não passa de um monte de bobagens. Puro preconceito. É verdade que a sabedoria popular muitas vezes carece de fundamentação científica, mas os intelectualóides de todos os matizes não podem contestar o fato de que uma boa conversa com os milhares de Joaquins e Marias que habitam nossas cidades pode nos oferecer preciosas lições de vida.
Dos muitos causos que ouvi durante minhas andanças pelo País, lembro-me bem de um, em especial, que se aplica como luva ao Brasil de hoje: a parábola do avarento. Conta a história de um pobre andarilho que, já cansado de tanto peregrinar pelas estradas, resolveu pedir um prato de comida aos donos de uma casa qualquer que encontrou pelo caminho.
Bateu à porta uma, duas, três, quatro vezes e nada. Até que, já cansado de tanto insistir para ser recebido, ouve o ranger da malfadada porta. Era o dono. Carrancudo, o homem pergunta, aborrecido: - O que você quer, a esta hora? - Um prato de comida, senhor - responde o já amendrotado andarilho.
- Não tenho nada. Sou pobre, muito pobre, e mal tenho o que comer aqui. Vá embora - retruca o homem.
De relance, o andarilho olha para dentro da casa e vê a comida, farta, posta à mesa. Logo, pensa: - Vou dar um jeito neste avarento. Antes que o homem feche a porta, o andarilho pede uma pedra e uma panela: - Vou fazer uma sopa aqui mesmo. Meio cabreiro, o homem atende o pedido. Mais tarde, o andarilho bate à porta de novo e pede temperos: - É para dar um gostinho na comida, explica. O avarento consente. Depois, bate a porta de novo e pede duas batatas: - É para engrossar o caldo, diz. O homem, de novo, atende o pedido.
Persistente, o andarilho bate pela terceira vez à porta e pede uma pequena porção de arroz: - É para dar um pouco mais de consistência à sopa, justifica. Surpreso, o avarento entrega o produto. Para concluir sua sopa de pedras, o homem bate a porta de novo e pede uma coxa de galinha. Já irritado, o homem pergunta: - Você não disse que queria fazer uma sopa de pedra? - Sim, mas com avarentos como o senhor, a gente tem de agir assim mesmo, porque senão não consegue nada, responde o andarilho.
Pois bem, amigo leitor. Nada mais oportuno que lembrar desta conhecida parábola no momento em que a Nação discute o polêmico aumento do salário mínimo. A moral desta história se aplica muito bem à política salarial adotada pelos comandantes do Palácio do Planalto em relação ao mínimo.
Creio não exagerar ao dizer isto. Na primeira quinzena do mês, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) divulgou dados que lançam por terra o argumento de que o suposto rombo da Previdência Social impossibilita a concessão de aumentos significativos no salário mínimo. Baseado em levantamento feito pela sua assessoria técnica, o deputado constatou que a Previdência teve lucro líquido superior a R$ 100 milhões somente em outubro do ano passado.
É até admissível que este lucro não seja suficiente para garantir o salário mínimo desejado pelos trabalhadores brasileiros, mas uma coisa é certa: R$ 100 milhões por mês é volume de recursos suficiente para conceder um reajuste bem mais expressivo do mínimo aos brasileiros que o prometido pelo governo. Mais que isto: seria absolutamente necessário.
O próprio presidente da República se comprometeu a fazer isto, aliás, no início do seu governo. Na ocasião, quando o mínimo era de R$ 70, FHC disse que dobraria o valor real até o final do seu mandato. Mas note, amigo leitor: descontando-se a inflação acumulada no período, que foi de aproximadamente 70%, a correção real aplicada ao mínimo, na verdade, foi de cerca de 30%.
E mais: o seu valor nominal, desconsiderando a inflação, não deveria ser de R$ 129, mas sim de R$ 140. Apesar de o embaixador Sérgio Amaral (porta-voz da Presidência) dizer o contrário, entretanto, tudo indica que a promessa não será cumprida. O próprio ministro da Fazenda, Pedro Malan, desautorizou o colega ao dizer que ainda não há nenhuma definição quanto a isto. Importa considerar, porém - e gostaríamos de chamar a atenção do amigo leitor para isto - para dois fatos inegáveis.
Primeiro: se o governo não fosse tão ineficiente no combate aos fraudadores do INSS (que desviam bilhões de dólares do Ministério da Previdência, todos os anos) e sonegadores de impostos (idem), seguramente seria possível conceder um reajuste maior para o mínimo. Segundo: ainda que a promessa seja cumprida, pouco (ou nada) ajudará os trabalhadores brasileiros e o mínimo pago no Brasil continuará sendo muito inferior ao praticado em outros países. Basta comparar o salário pago no Brasil com os de outras nações vizinhas, inclusive mais pobres que a nossa: R$ 200 (Argentina), R$ 160 (Uruguai) e R$ 145 (Paraguai).
Por todas estas razões, entendo que é louvável a disposição do governo de fazer um esforço concentrado para dobrar o mínimo. Muito mais louvável seria, porém, se o Palácio do Planalto fosse além disto e, depois de punir rigorosamente os verdadeiros responsáveis pelos rombos da Previdência, pagasse um salário mínimo compatível com o padrão de vida desejado pelo povo brasileiro. A Previdência Social não é deficitária. É apenas mal administrada.
Ninguém consegue garantir o próprio sustento e o de sua família com um vencimento mensal de R$ 140. Os trabalhadores não querem esmolas e pedras para garantir seu sustento, como no caso da parábola a qual nos referimos acima. O que os brasileiros querem, na verdade, é comida boa e farta à mesa.
- PADRE ROQUE é deputado federal (PT-PR) e professor licenciado do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Ponta Grossa





