No sábado passado, tive a honra de participar como palestrante do 1º Simpósio Paranaense de Ciência Política, promovido pelo Instituto Andorinha. O convite partiu do presidente da entidade, Dr. Francisco Takio Tan, e o tema da minha palestra foi ‘‘Formação e Participação Política do Cidadão’’. Os demais palestrantes foram o Dr. Fernando Fontana, presidente do BRDE, e o Embaixador do Japão, Sr. Chihiro Tsukada.
Quando fui chamada ao palco, o sr. João Milanez, num gesto muito seu de brincadeira e simpatia, me tomou pelo braço e me conduziu à mesa. Em seguida, disse bem alto para que todos ouvissem: ‘‘Agora, professora, cumprimenta em japonês’’. Dito isto, afastou-se rapidamente e voltou ao seu lugar. Sem saber falar aquela língua, em questão de segundos refleti que poderia atender ao pedido do sr. Milanez, e assim pensando curvei respeitosamente a cabeça diante da platéia.
Todos entenderam meu gesto e riram baixinho e discretamente um riso de aprovação. Entretanto, tenho a certeza de que japoneses e descendentes de japoneses ali presentes compreenderam mais profundamente do que os demais o simbolismo da reverência.
Afirmo isso baseada na influência das idéias de Confúcio sobre o Japão, influência visível até hoje nos valores, comportamentos e tradições, enfim, na cultura desse extraordinário povo. Segundo tais idéias, a natureza humana é naturalmente boa e deve ser respeitada, e sem dúvida é esta crença que faz com que os japoneses se curvem uns diante dos outros em sinal de profundo respeito. Um cumprimento bem diferente dos nossos efusivos e mediterrâneos beijos e abraços, que podem traduzir carinho, afeição ou mesmo hipocrisia, mas que estão longe do senso de hierarquia que nunca tivemos.
Justamente a cultura japonesa e seus valores, são admiravelmente analisados no livro do norte-americano Lawrence E. Harrison, ‘‘Who Prospers? How Cultural Values Shape Economic and Politic Sucess’’, infelizmente ainda não traduzido para o português, uma vez que nesta obra o autor inclusive dedica um capítulo ao Brasil.
Afirma Harrison no seu trabalho, que ‘‘a principal razão para o milagre japonês são os próprios japoneses’’, os quais baseados nos seus valores e atitudes, deixaram o mundo inteiro espantado com o dinamismo econômico e as normas democráticas que conseguiram fazer afluir algumas décadas depois de serem devastados na Segunda Guerra Mundial.
Lawrence Harrison recorda a Era Meiji, que chama de Revolução Meiji, em cujo governo se destacaram principalmente Kido Koin e Okubo Toshimichi. Pragmatistas e utilitaristas, ao mesmo tempo estes líderes se deixaram guiar por conceitos confucianos de perfeição social alcançada através da organização ética e política do governo, sendo que em 1868 Kido enunciou os alvos-chaves do Japão com vistas a entrar na modernidade: ‘‘Promover homens de talento em todos os lugares, devotar o governo inteiramente ao bem-estar do povo, colocar o Japão em pé de igualdade com outros países do mundo’’.
Junto com essas metas, o programa fundamental da Era Meiji baseava-se na educação, e o sistema educacional se destinava a produzir trabalhadores eficazes e cidadãos eficazes.
Em 1890, um documento imperial demonstrava a prevalência do pensamento confuciano na educação e no sistema de ética do Japão: ‘‘Nossos imperadores ancestrais fundaram nosso Império em bases extensas e duradouras, e profunda e firmemente implantaram a virtude, sendo que nossos súditos sempre unidos na lealdade e no amor filial, têm de geração em geração ilustrado a beleza disto. Esta é a glória do caráter fundamental do nosso Império, e nisto se baseia a fonte de nossa educação. Nossos súditos são filiais com seus pais, afeiçoados a seus irmãos e irmãs, assim como maridos e esposas vivem em harmonia, como verdadeiros amigos; sustentam-se na modéstia e na moderação; oferecem sua benevolência a todos; procuram o saber e cultivar as artes, e assim desenvolvem as faculdades intelectuais e o perfeito poder moral; além disso progridem no bem público e promovem o interesse comum; sempre respeitam a Constituição e observam as leis. Quando surge a crise oferecem a si mesmos corajosamente ao Estado, e dessa maneira guardam e mantêm a prosperidade do nosso trono imperial contemporâneo do céu e da terra. Desta forma, não só existem bons e fiéis súditos como serão transmitidas ilustremente as melhores tradições dos nossos antepassados’’.
Neste final de século, a filosofia confuciana permanece e coexiste com a modernidade de segunda potência mundial, o que se expressa em valores e atitudes tais como: trabalho duro; educação como principal meio de assegurar o progresso; moderação e frugalidade; perseverança e ênfase no mérito. E este é o segredo do ‘‘milagre’’.
Ao terminar a palestra, olhei de novo para o auditório onde se encontravam japoneses e seus descendentes brasileiros. Então, de novo curvei a cabeça em sinal de respeito e admiração.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga.

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