É bem provável que os senadores da CPI dos Bancos passem batido pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan, independentemente do desejo do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que já requereu a presença do ministro. Pode ser, e por enquanto é uma hipótese que Malan escape de prestar depoimento sobre as nebulosas operações financeiras patrocinadas pelo governo.
Se isso ocorrer, Malan ficará em dívida com o País. O governo tem obrigação de revelar como e quando foram realizadas as operações e o tamanho dos prejuízos causados pelo socorro prestado pelos cofres públicos a instituições financeiras.
Malan, não sendo convocado como querem os senadores governistas, as explicações devem acontecer de outra maneira. E de boa vontade. Assessores do presidente costumam garantir que Pedro Malan não tem rabo preso, nunca trabalhou em bancos, nada deve a ninguém.
Se é assim, por que tanta má vontade nas conversas com a imprensa? Poucas vezes ficou tão evidente, como segunda-feira, a indisposição do ministro em prestar esclarecimentos sobre as denúncias que falam de favorecimento a instituições privadas.
Ao dar entrevista ao programa ‘‘Bom-Dia, Brasil’’, na TV Globo, sobre o caso Marka-FonteCindam e a CPI dos Bancos, Malan mostrou-se irritado, aborrecido, constrangido. Deu a nítida impressão de estar ali pressionado, contra a vontade.
Malan não gostou de responder a algumas questões - levantadas hoje em qualquer rua ou esquina do País, como por exemplo: o ministro sabia ou não das operações? Ele garantiu que só tomou conhecimento 15 dias depois de feito o negócio, ocasião em que pôs seu cargo e o do presidente do Banco Central à disposição de Fernando Henrique Cardoso.
O ministro não disse por que ficou e Francisco Lopes foi demitido. À pergunta sobre a hipótese de Chico Lopes ter saído por causa do episódio Marka-FonteCindam, respondeu secamente: ‘‘Não’’.
E por que Chico Lopes ficou tão pouco tempo no cargo? O que houve realmente entre os dias 13, 14 e 15 de janeiro? Quem respaldou as operações com aqueles bancos que podem ter causado um rombo de quase R$ 1,6 bilhão ao Tesouro? São dúvidas que pairam sobre o governo.
Sombras que podem comprometer outras iniciativas oficiais e que precisam ser dissipadas. E só o serão sob a palavra das autoridades. Desde que estourou o escândalo, apenas Armínio Fraga, presidente do Banco Central, falou com desenvoltura sobre o assunto.
Havia, claro, uma razão para isso: Fraga não estava no governo em janeiro, esteve longe do episódio. Chegou depois. Malan, ao contrário, preferiu escapar pela tangente. Fez piada com assunto sério.
Disse, certa vez, que algumas informações só seriam reveladas dez anos depois de sua morte. Diante do espanto geral, desmentiu. Havia falado por brincadeira, justificou.
Segunda-feira, ele insistiu no desmentido. Malan tocou no assunto pela primeira vez em março ao depor na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Voltou ao tema junto com Fraga num depoimento conjunto à comissão mista da Câmara e do Senado.
No dia 26 daquele mês, no Rio, o presidente do Banco Central foi incisivo ao falar das operações: de onde saiu o dinheiro para o Marka-FonteCindam? E respondeu Fraga: ‘‘Do seu, do meu, do nosso.’’
Embora pareça muito, ainda é pouco, muito pouco, diante das muitas perguntas que estão no ar.
- MÍRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília

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