O mercado informal e a Previdência
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de agosto de 1997
Luiz Bordenowski 
O ministro da Previdência Social, Reinhold Stephanes, em recente entrevista concedida à imprensa nacional, atribuiu a queda da arrecadação da Previdência ao mercado informal de trabalho, poupando os vilões anteriores, no caso os aposentados - pessoas que estariam sangrando os cofres públicos, especialmente os servidores, que trabalham apenas 35 anos, em um país cuja expectativa de vida chega aos 60 anos de idade.
Mudando a retórica anterior, Reinhold Stephanes também poupou os grandes fraudadores da Previdência. Por exemplo, o advogado Wilson Scórcia da Veiga e o juiz Nestor do Nascimento, que entre outros foram responsáveis pelo desvio de milhões de reais da instituição. Isso sem falar nos sonegadores, especialmente os grandes empresários, que, longe de sofrerem sanções legais, usufruem da anistia fiscal depois de embolsarem o dinheiro das contribuições dos empregados, inclusive do FGTS, o que é inaceitável.
Para o ministro o mercado informal de trabalho, que cresce assustadoramente no país, quase se igualando ao nível do México, agora é o responsável pela evasão da receita dos órgãos de Previdência, uma vez que a atividade formal tem sido reduzida sensivelmente neste governo. Não por opção dos trabalhadores, mas devido à recessão, especialmente nos grandes centros do país, já que milhares de vagas são extintas mensalmente por causa da falência do empresariado.
Hoje o país necessita de milhão de empregos por ano, o que seria uma das metas do presidente Fernando Henrique Cardoso, que, no entanto, em três anos de governo se limitou a discutir reformas menos importantes, deixando para trás a Tributária, que aliás, nem chegou a tramitar na Câmara dos Deputados. Enquanto isso, o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, pede à população que agradeça o parlamento pelo trabalho que deixou de realizar.
Atribuir os problemas nacionais à globalização da economia é outra inverdade, questionada por analistas internacionais, uma vez que no Brasil outros fatos estão ocorrendo, prejudicando a nossa indústria e as exportações. É o caso dos juros altos e da política cambial, que terá a mesma continuidade com Gustavo Franco, futuro presidente do Banco Central, pois esse artifício, somando à recessão, é a base de sustentação do Plano Real.
Agora, a grande legião de desempregados brasileiros, pessoas que dependem do mercado informal de trabalho, é, no entender do ministro Stephanes, responsável pela queda da receita da Previdência, tornando insustentável o atual regime de aposentadoria, que deverá receber novas alterações dentro de no máximo cinco anos.
Parece, na ótica do ministro, que a atividade informal é uma opção dos trabalhadores, que deixaram de ser bancários, metalúrgicos etc, para venderem produtos nas ruas, montarem fabriquetas de fundo de quintal ou trabalharem sem qualquer registro.
Passada a vez do trabalhador público, agora os culpados pelo déficit da Previdência são os camelôs que infestam as grandes cidades, vendem cigarros contrabandeados do Paraguai, quinquilharias em geral e frutas, pessoas que passam o dia fugindo da polícia e dos fiscais das prefeituras.
Em razão das alegações do ministro, podemos reafirmar a máxima popular que diz que vivemos e não vemos tudo.
Palavras sábias!


