João Edmilson Fabrini
As relações capitalistas de produção caracterizam-se pela divisão da sociedade em classes. Assim, para compreender a sociedade capitalista, é necessário entender a forma como as classes se reproduzem. Como é sabido por todos, a burguesia se reproduz acumulando capital através da apropriação das mercadorias produzidas no processo de trabalho (mais-valia). Os trabalhadores sobrevivem vendendo a mercadoria que possuem, ou seja, a força de trabalho.
Aqui, surge a questão: como a classe latifundiária acumula capital sem produzir mercadorias, pois suas terras são improdutivas? Não produzindo, esta classe representaria o atraso e a irracionalidade no capitalismo. A permanência do latifúndio seria um obstáculo para a modernização e o desenvolvimento do mercado e das forças produtivas.
Sendo assim, a extinção do latifúndio seria apoiada pela classe burguesa, que teria muito a lucrar com a ampliação do mercado capitalista. Aparentemente, a reforma agrária seria apoiada pelos industriais, mídia etc. Entretanto, o latifúndio está cada vez mais sólido no campo brasileiro e paranaense.
Ocorre que a classe latifundiária acumula capital através de outros mecanismos que não se limitam à racionalidade dos mercados capitalistas, mas que estão inseridos nas relações capitalistas de produção (renda da terra). Além disso, muitas vezes os capitalistas são os proprietários das terras.
A contradição de interesses entre os latifundiários e a burguesia é aparente, e os fatos, tanto do passado como os atuais, comprovam a aliança entre estes dois segmentos da sociedade, principalmente a paranaense. Aqui, no Estado do Paraná, evidencia-se uma sólida aliança entre as modernas relações de mercado e os segmentos oligárquicos/atrasados. No passado, apesar das diferenças pontuais, podemos exemplificar a aliança, citando os vínculos políticos/econômicos mediados pelo PSD (Partido Social Democrático).
O governo federal, que imprimia ações que garantiam o interesse empresarial com incentivos às industrias, criação de empresas, obras modernas e a abertura do Brasil para o capital estrangeiro, articulava-se com o governador Moysés Lupion, no Paraná, que estava envolvido em negociatas de terra com companhias colonizadoras, quando se titulava as ‘‘terras em favor de amigos’’ (amizade e mercado são incompatíveis) para obter capitais através de hipoteca no Banco do Estado. A última operação era precedida por mecanismos que não eram regulados pelas leis de mercado.
Nos dias atuais, observa-se, também, a aliança entre representantes da economia de mercado (moderno) e do atraso, através dos últimos acontecimentos no campo paranaense. O recente despejo de sem-terra em Querência do Norte e os elogios da UDR, ao atual governador do Paraná, Jaime Lerner, em artigo publicado pela Folha do Paraná em 8 de maio, são ilustrativos.
O governo estadual, que se caracteriza pela intimidade com o mercado (indústrias automobilísticas) e apresenta-se como moderno, é sensível aos interesses da classe oligárquica, representada na UDR, e que teoricamente não opera no circuito das leis de mercado, pois, praticamente nada produz na terra.
Portanto, pode-se observar que não há contradição entre os interesses e prática de latifundiários e capitalistas/burgueses, e, a ‘‘mão invisível do mercado’’ não é um mecanismo eficiente para remover o latifúndio do campo brasileiro e paranaense.
- JOÃO EDMILSON FABRINI é professor universitário em Marechal Cândido Rondon

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