O mercado da ignorância - Sérgio Gonçalves Lima
O mercado da
ignorância
Sérgio Gonçalves Lima
É notável o uso que a mídia faz das datas chamadas redondas. Explora-se a ignorância de boa parte do povo para se vender o apocalipse e também o paraíso na terra. O ano 2000 é nos últimos dias a coqueluche dos que acham que a mera troca de século marcará o início mágico de uma nova fase da humanidade. Há os bruxos da catástrofe e os druidas do milagre. Neste tempo medonho, vasto em besteiras e propagadores de asneiras, os mágicos dos absurdos surgem em profusão e apostam nos inverossímeis sortilégios e profecias.
Na histeria coletiva induzida por estes filhos da ignorância, de boa ou má-fé, um grande número de pessoas simplesmente é tomado pelo pavor do fogo celeste que deverá cair sobre nossas cabeças na meia-noite do dia 1º do ano que vem.
Os magos do otimismo, é lógico, farão uma grande festa, afinal à meia-noite e um minuto nosso Planeta vai-se transformar. Teremos aqui a paz eterna, a felicidade reinará serena por milênios e todos teremos a nossa ignorância relegada ao passado, pois daí em diante todos seremos sábios.
Em ambos os casos não existe nada de científico que prove que tais eventos devam acontecer. Na história do homem, é evidente que toda vez em que deparamos com coisas que aparentemente a razão não explica se inventam histórias do outro mundo para justificar a nossa falta de saber. Com certeza esses cavaleiros do apocalipse se sentirão meio vazios no dia seguinte ao notarem que nada de realmente novo aconteceu. Vira-se a esquina, mas a cruz é a mesma, pesando sobre nossos ombros com alguns quilos acrescentados pelo tempo que passa. Mas a insistência na bobagem continua. Temos outra data cheia para breve em nosso calendário, as comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil - a palavra comemorações soa como um escárnio ao se examinar a história de nosso País.
Para não voltar muito em nossas lembranças, vamos nos deter somente em fatos recentes. A servidão de nossos políticos aos países mais ricos é um fato mais do que histórico e realmente algo digno de se comemorar. Estamos pagando mais US$ 100 bilhões este ano dos juros de nossa eterna dívida. Enquanto isso. o povo definha no desemprego. Os direitos sociais simplesmente são cortados de nossas leis. Tudo caminha para o caos.
Na educação, única saída para tirar o País de seu secular atraso, os programas do governo andam pelo perigoso vale do absurdo. O IBGE, em pesquisa de 96, aponta 14,7% do brasileiros analfabetos acima dos 15 anos de idade. E o IBGE é bem generoso em suas avaliações, pois considera analfabeto somente a pessoa que não sabe ler e escrever um bilhete simples no idioma que conhece. Será que ler apenas um bilhete é suficiente para o brasileiro ser considerado verdadeiramente um cidadão?
Ora, é evidente que não. A atual Lei e Diretrizes e Bases da Educação (LDB), aponta que ser cidadão o educando que ao terminar o ensino médio demonstre domínio dos princípios científicos e tecnológicos que presidem a produção moderna; conhecimento das formas contemporâneas de linguagem; domínio dos conhecimentos de Filosofia e Sociologia necessários ao exercício da cidadania.
Para que se considere um brasileiro cidadão, a lei é bem clara e parte do pressuposto que o Estado oferece as condições mínimas para se ter acesso ao ensino médio. Todos sabem que isso não acontece. Os fatores que provocam a evasão escolar estão calcados principalmente na miséria reinante no Brasil e no nefasto modelo econômico adotado por nossos políticos de claro privilégio às elites.
O mercado não dorme e sempre surge um vivaldino para se aproveitar das facilidades oferecidas pelo Ministério da Educação (MEC) no que diz respeito à graduação no ensino médio. Recentemente, nos classificados dos jornais do Paraná, havia este anúncio: Diploma - Consiga seu diploma de 1º ou 2º grau em apenas 30 dias. E junto ao número do telefone, o aviso é reconhecido pelo MEC. Se a escola já não resolve os problemas básicos da educação, imaginem nesta arapuca que, diga-se de passagem, é legal.
Pelo visto, temos muito pouco para comemorar nos nossos 500 anos entregues à ignorância e aos devaneios do governo. No dia 1º de janeiro de 2000, amanheceremos como nos outros anos, com um pouco mais de analfabetos e com os estatísticos fazendo um grande esforço para demonstrar que o paraíso é aqui.
- SÉRGIO GONÇALVES LIMA é biólogo e presidente da Federação dos Trabalhadores em Educação do Estado do Paraná (Fetepar), em Curitiba





