O menino que virou Fenômeno
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segunda-feira, 01 de julho de 2002
Nelson Capucho 
Lá vem Kléberson pela direita, olha para a área e cruza a bola rasteira na direção de Rivaldo. O meia dá aquela deixadinha maliciosa, brasileiríssima. Ronaldo domina com carinho. O gigante Khan está diante dele, mas vai saltar inutilmente e ficará deitado no tapete verde, a observar de rabo de olho a bola caprichosa, que segue feito um pássaro em busca do ninho.
Um gol que certamente receberia o carimbo de aprovação dos mais rigorosos auditores do futebol romântico. Brasil 2 a 0. O Fenômeno abre os braços e corre rumo ao comandante. O paizão Luiz Felipe Scolari merecia aquele abraço. Afinal, não foi o Felipão quem acreditou nele desde o início? Não foi o Felipão quem enfrentou os raios da crítica ao preterir o experiente Romário e apostar em um atacante que vinha de duas operações no joelho e longo período de incertezas?
Naquele átimo, naqueles segundos de pique da área alemã ao banco de reservas do Brasil, talvez o Fenômeno tenha imaginado milhões de rostos sorridentes. Talvez tenha pensado em várias coisas. Talvez não tenha pensado em nada. Era um instante mágico, mesmo para quem já foi considerado o melhor jogador do Mundo.
Mas no finalzinho do jogo, quando ele deixou o campo substituído por Denílson, não resta dúvida: Ronaldo só pensava no filme da própria vida. O drama no jogo final da Copa da França, os dois anos de sofrimento sem saber se voltaria a jogar, se ainda sentiria o prazer inominável de fazer um gol com a camisa da seleção, um golzinho mixuruca, que fosse. Nem precisava ser assim, oito gols na Copa, pentacampeão, artilheiro do Mundial!
E o fenômeno voltou a ser o menino dentuço, de olhar meigo, que surgiu no Cruzeiro para encantar brasileiros, espanhóis, italianos e amantes do futebol de todos os cantos do Planeta. Naquele momento, o menino que virou Fenômeno chorou. Um choro de tudo. Um choro para espantar de vez os fantasmas que rondaram suas noites durante dois anos. Um novelo de emoções. Uma alegria transbordante. ''Hoje Deus me proporcionou um momento maravilhoso... ganhar a Copa do mundo... fazer dois gols, mas é uma vitória do grupo, todos foram ótimos'', diria o Fenômeno, tranquilão, depois da festa.
Missão cumprida. Então os dois foram dormir: o menino dentuço e o rei do Mundo, que agora ocupam o mesmo lugar no espaço.
NELSON CAPUCHO é jornalista em Londrina


